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Aeroporto de Guarulhos-SP
Mosteiro de São Bento
Estádio do Pacaembu
Missa de Canonização do Beato Frei Galvão
Catedral da Sé
Fazenda Esperança
Basílica de Aparecida-SP
Missa de Inauguração da V CELAM
Abertura da V CELAM
Aeroporto de Guarulhos-SP
Mensagem do Papa no Aeroporto de Guarulhos-SP

Excelentíssimo Senhor Presidente da República
Senhores Cardeais e Venerados Irmãos no Episcopado
Queridos Irmãos e Irmãs em Cristo!
É para mim motivo de particular satisfação iniciar a minha Visita Pastoral ao
Brasil e apresentar a Vossa Excelência, na sua qualidade de Chefe e
representante supremo da grande Nação brasileira, os meus agradecimentos pela
amável acolhida que me foi dispensada. Um agradecimento que estendo, com muito
prazer, aos membros do Governo que acompanham Vossa Excelência, às
personalidades civis e militares aqui reunidas e às autoridades do Estado de São
Paulo. Nas palavras de boas-vindas a mim dirigidas, sinto ecoar, Senhor
Presidente, os sentimentos de carinho e amor de todo o Povo brasileiro para com
o Sucessor do Apóstolo Pedro.
Saúdo fraternalmente no Senhor os meus queridos Irmãos no Episcopado que aqui
vieram para me receber em nome da Igreja que está no Brasil. Saúdo igualmente os
sacerdotes, os religiosos e as religiosas, os seminaristas e os leigos
comprometidos com a obra de evangelização da Igreja e com o testemunho de uma
vida autenticamente cristã. Enfim, dirijo a minha afetuosa saudação a todos os
brasileiros sem distinção, homens e mulheres, famílias, anciãos, enfermos,
jovens e crianças. A todos digo de coração: Muito obrigado pela vossa generosa
hospitalidade!
Saudação do Papa no Mosteiro de São Bento

Queridos amigos!
Esta acolhida tão calorosa comove o Papa! Obrigado, por terem querido
aguardar-me.
Estes dias para todos vocês e para a Igreja estarão cheios de emoções e de
alegrias.
É uma Igreja em Festa! De todos os cantos do mundo estão rezando pelos frutos
desta Viagem, a primeira Viagem Pastoral ao Brasil e à América Latina que a
Providência me permite realizar como Sucessor de Pedro!
A Canonização do Frei Galvão e a Inauguração da Quinta Conferência Geral do
Episcopado Latino-Americano e Caribenho serão marcos históricos para a Igreja.
Conto com vocês e com suas orações!
Mensagem do Papa aos Jovens no Estádio do
Pacaembu

Queridos jovens! Queridos amigos e amigas!
"Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres [...]
Depois, vem e segue-me" (Mt 19,21).
1.Desejei ardentemente encontrar-me convosco nesta minha primeira viagem à
América Latina. Vim para abrir a V Conferência do Episcopado Latino-americano
que, por meu desejo, vai realizar-se em Aparecida, aqui no Brasil, no Santuário
de Nossa Senhora. Ela nos coloca aos pés de Jesus para aprendermos suas lições
sobre o Reino e impulsionar-nos a ser seus missionários, para que os povos deste
“Continente da Esperança” tenham, n’Ele, vida plena.
Os vossos Bispos do Brasil, na sua Assembléia Geral do ano passado, refletiram
sobre o tema da evangelização da juventude e colocaram em vossas mãos um
documento. Pediram que fosse acolhido e aperfeiçoado por vós durante todo o ano.
Nesta última Assembléia retomaram o assunto, enriquecido com vossa colaboração,
e desejam que as reflexões feitas e as orientações propostas sirvam como
incentivo e farol para vossa caminhada. As palavras do Arcebispo de São Paulo e
do encarregado da Pastoral da Juventude, as quais agradeço, bem atestam o
espírito que move a todos vocês.
Ontem pela tarde, ao sobrevoar o território brasileiro, pensava já neste nosso
encontro no Estádio do Pacaembu, com o desejo de dar um grande abraço bem
brasileiro a todos vós, e manifestar os sentimentos que levo no íntimo do
coração e que, bem a propósito, o Evangelho de hoje nos quis indicar.
Sempre experimentei uma alegria muito especial nestes encontros. Lembro-me
particularmente da Vigésima Jornada Mundial da Juventude, que tive a ocasião de
presidir há dois anos atrás na Alemanha. Alguns dos que estão aqui também lá
estiveram! É uma lembrança comovedora, pelos abundantes frutos da graça enviados
pelo Senhor. E não resta a menor dúvida que o primeiro fruto, dentre muitos, que
pude constatar foi o da fraternidade exemplar havida entre todos, como
demonstração evidente da perene vitalidade da Igreja por todo o mundo.
2.Pois bem, caros amigos, estou certo de que hoje se renovam as mesmas
impressões daquele meu encontro na Alemanha. Em 1991, o Servo de Deus o Papa
João Paulo II, de venerada memória, dizia, na sua passagem pelo Mato Grosso, que
os “jovens são os primeiros protagonistas do terceiro milênio [...] são vocês
que vão traçar os rumos desta nova etapa da humanidade” (Discurso 16/10/1991).
Hoje, sinto-me movido a fazer-lhes idêntica observação.
O Senhor aprecia, sem dúvida, vossa vivência cristã nas numerosas comunidades
paroquiais e nas pequenas comunidades eclesiais, nas Universidades, Colégios e
Escolas e, especialmente, nas ruas e nos ambientes de trabalho das cidades e dos
campos. Trata-se, porém, de ir adiante. Nunca podemos dizer basta, pois a
caridade de Deus é infinita e o Senhor nos pede, ou melhor, nos exige dilatar
nossos corações para que neles caiba sempre mais amor, mais bondade, mais
compreensão pelos nossos semelhantes e pelos problemas que envolvem não só a
convivência humana, mas também a efetiva preservação e conservação da natureza,
da qual todos fazem parte. “Nossos bosques têm mais vida”: não deixeis que se
apague esta chama de esperança que o vosso Hino Nacional põe em vossos lábios. A
devastação ambiental da Amazônia e as ameaças à dignidade humana de suas
populações requerem um maior compromisso nos mais diversos espaços de ação que a
sociedade vem solicitando.
3.Hoje quero convosco refletir sobre o texto de São Mateus (19, 16-22), que
acabamos de ouvir. Fala de um jovem. Ele veio correndo ao encontro de Jesus.
Merece destaque a sua ânsia. Neste jovem vejo a todos vós, jovens do Brasil e da
América Latina. Viestes correndo de diversas regiões deste Continente para nosso
encontro. Quereis ouvir, pela voz do Papa, as palavras do próprio Jesus.
Tendes uma pergunta crucial, referida no Evangelho, a Lhe fazer. É a mesma do
jovem que veio correndo ao encontro com Jesus: o que fazer para alcançar a vida
eterna? Gostaria de aprofundar convosco esta pergunta. Trata-se da vida. A vida
que, em vós, é exuberante e bela. O que fazer dela? Como vivê-la plenamente?
Logo entendemos, na formulação da própria pergunta, que não basta o aqui e
agora, ou seja, nós não conseguimos delimitar nossa vida ao espaço e ao tempo,
por mais que pretendamos estender seus horizontes. A vida os transcende. Em
outras palavras, queremos viver e não morrer. Sentimos que algo nos revela que a
vida é eterna e que é necessário empenhar-se para que isto aconteça. Em outras
palavras, ela está em nossas mãos e depende, de algum modo, da nossa decisão.
A pergunta do Evangelho não contempla apenas o futuro. Não trata apenas de uma
questão sobre o que acontecerá após a morte. Há, ao contrário, um compromisso
com o presente, aqui e agora, que deve garantir autenticidade e conseqüentemente
o futuro. Numa palavra, a pergunta questiona o sentido da vida. Pode por isso
ser formulada assim: que devo fazer para que minha vida tenha sentido? Ou seja:
como devo viver para colher plenamente os frutos da vida? Ou ainda: que devo
fazer para que minha vida não transcorra inutilmente?
Jesus é o único capaz de nos dar uma resposta, porque é o único que nos pode
garantir vida eterna. Por isso também é o único que consegue mostrar o sentido
da vida presente e dar-lhe um conteúdo de plenitude.
4.Antes, porém, de dar sua resposta, Jesus questiona a pergunta do jovem num
aspecto muito importante: por que me chamas de bom? Nesta pergunta se encontra a
chave da resposta. Aquele jovem percebeu que Jesus é bom e que é mestre. Um
mestre que não engana. Nós estamos aqui porque temos esta mesma convicção: Jesus
é bom. Podemos não saber dar toda a razão desta percepção, mas é certo que ela
nos aproxima dele e nos abre ao seu ensinamento: um mestre bom. Quem reconhece o
bem é sinal que ama. E quem ama, na feliz expressão de São João, conhece Deus
(cf.1Jo 4,7). O jovem do Evangelho teve uma percepção de Deus em Jesus Cristo.
Jesus nos garante que só Deus é bom. Estar aberto à bondade significa acolher
Deus. Assim Ele nos convida a ver Deus em todas as coisas e em todos os
acontecimentos, mesmo lá onde a maioria só vê a ausência de Deus. Vendo a beleza
das criaturas e constatando a bondade presente em todas elas, é impossível não
crer em Deus e não fazer uma experiência de sua presença salvífica e
consoladora. Se nós conseguíssemos ver todo o bem que existe no mundo e, ainda
mais, experimentar o bem que provém do próprio Deus, não cessaríamos jamais de
nos aproximar dele, de O louvar e Lhe agradecer. Ele continuamente nos enche de
alegria e de bens. Sua alegria é nossa força.
Mas nós não conhecemos senão de forma parcial. Para perceber o bem necessitamos
de auxílios, que a Igreja nos proporciona em muitas oportunidades,
principalmente pela catequese. Jesus mesmo explicita o que é bom para nós,
dando-nos sua primeira catequese. «Se queres entrar na vida, observa os
mandamentos» (Mt 19,17). Ele parte do conhecimento que o jovem já obteve
certamente de sua família e da Sinagoga: de fato, ele conhece os mandamentos.
Eles conduzem à vida, o que equivale a dizer que eles nos garantem
autenticidade. São as grandes balizas a nos apontarem o caminho certo. Quem
observa os mandamentos está no caminho de Deus.
Não basta conhecê-los. O testemunho vale mais que a ciência, ou seja, é a
própria ciência aplicada. Não são impostos de fora, nem diminuem nossa
liberdade. Pelo contrário: constituem impulsos internos vigorosos, que nos levam
a agir nesta direção. Na sua base está a graça e a natureza, que não nos deixam
parados. Precisamos caminhar. Somos impelidos a fazer algo para nos realizarmos
a nós mesmos. Realizar-se, através da ação, na verdade, é tornar-se real. Nós
somos, em grande parte, a partir de nossa juventude, o que nós queremos ser.
Somos, por assim dizer, obra de nossas mãos.
5.Nesta altura volto-me, de novo, para vós, jovens, querendo ouvir também de vós
a resposta do jovem do Evangelho: tudo isto tenho observado desde a minha
juventude. O jovem do Evangelho era bom. Observava os mandamentos. Estava pois
no caminho de Deus. Por isso Jesus fitou-o com amor. Ao reconhecer que Jesus era
bom, testemunhou que também ele era bom. Tinha uma experiência da bondade e por
isso, de Deus. E vós, jovens do Brasil e da América Latina? Já descobristes o
que é bom? Seguis os mandamentos do Senhor? Descobristes que este é o verdadeiro
e único caminho para a felicidade?
Os anos que vós estais vivendo são os anos que preparam o vosso futuro. O
“amanhã” depende muito de como estais vivendo o “hoje” da juventude. Diante dos
olhos, meus queridos jovens, tendes uma vida que desejamos seja longa; mas é uma
só, é única: não a deixeis passar em vão, não a desperdiceis. Vivei com
entusiasmo, com alegria, mas, sobretudo, com senso de responsabilidade.
Muitas vezes sentimos trepidar nossos corações de pastores, constatando a
situação de nosso tempo. Ouvimos falar dos medos da juventude de hoje.
Revelam-nos um enorme déficit de esperança: medo de morrer, num momento em que a
vida está desabrochando e procura encontrar o próprio caminho da realização;
medo de sobrar, por não descobrir o sentido da vida; e medo de ficar
desconectado diante da estonteante rapidez dos acontecimentos e das
comunicações. Registramos o alto índice de mortes entre os jovens, a ameaça da
violência, a deplorável proliferação das drogas que sacode até a raiz mais
profunda a juventude de hoje. Fala-se por isso, seguidamente, de uma juventude
perdida.
Mas olhando para vós, jovens aqui presentes, que irradiais alegria e entusiasmo,
assumo o olhar de Jesus: um olhar de amor e confiança, na certeza de que vós
encontrastes o verdadeiro caminho. Sois jovens da Igreja. Por isso Eu vos envio
para a grande missão de evangelizar os jovens e as jovens, que andam por este
mundo errantes, como ovelhas sem pastor. Sede os apóstolos dos jovens.
Convidai-os para que venham convosco, façam a mesma experiência de fé, de
esperança e de amor; encontrem-se com Jesus, para se sentirem realmente amados,
acolhidos, com plena possibilidade de realizar-se. Que também eles e elas
descubram os caminhos seguros dos Mandamentos e por eles cheguem até Deus.
Podeis ser protagonistas de uma sociedade nova se procurais pôr em prática uma
vivência real inspirada nos valores morais universais, mas também um empenho
pessoal de formação humana e espiritual de vital importância. Um homem ou uma
mulher despreparados para os desafios reais de uma correta interpretação da vida
cristã do seu meio ambiente será presa fácil a todos os assaltos do materialismo
e do laicismo, sempre mais atuantes em todos os níveis.
Sede homens e mulheres livres e responsáveis; fazei da família um foco
irradiador de paz e de alegria; sede promotores da vida, do início ao seu
natural declínio; amparai os anciãos, pois eles merecem respeito e admiração
pelo bem que vos fizeram. O Papa também espera que os jovens procurem santificar
seu trabalho, fazendo-o com competência técnica e com laboriosidade, para
contribuir ao progresso de todos os seus irmãos e para iluminar com a luz do
Verbo todas as atividades humanas (cf. Lumen Gentium, n. 36). Mas, sobretudo, o
Papa espera que saibam ser protagonistas de uma sociedade mais justa e mais
fraterna, cumprindo as obrigações frente ao Estado: respeitando as suas leis;
não se deixando levar pelo ódio e pela violência; sendo exemplo de conduta
cristã no ambiente profissional e social, distinguindo-se pela honestidade nas
relações sociais e profissionais. Tenham em conta que a ambição desmedida de
riqueza e de poder leva à corrupção pessoal e alheia; não existem motivos para
fazer prevalecer as próprias aspirações humanas, sejam elas econômicas ou
políticas, com a fraude e o engano.
Definitivamente, existe um imenso panorama de ação no qual as questões de ordem
social, econômica e política ganham um particular relevo, sempre que haurirem
sua fonte de inspiração no Evangelho e na Doutrina Social da Igreja. A
construção de uma sociedade mais justa e solidária, reconciliada e pacífica; a
contenção da violência e as iniciativas que promovam a vida plena, a ordem
democrática e o bem comum e, especialmente, aquelas que visem eliminar certas
discriminações existentes nas sociedades latino-americanas e não são motivo de
exclusão, mas de recíproco enriquecimento.
Tende, sobretudo, um grande respeito pela instituição do Sacramento do
Matrimônio. Não poderá haver verdadeira felicidade nos lares se, ao mesmo tempo,
não houver fidelidade entre os esposos. O matrimônio é uma instituição de
direito natural, que foi elevado por Cristo à dignidade de Sacramento; é um
grande dom que Deus fez à humanidade. Respeitai-o, venerai-o. Ao mesmo tempo,
Deus vos chama a respeitar-vos também no namoro e no noivado, pois a vida
conjugal que, por disposição divina, está destinada aos casados é somente fonte
de felicidade e de paz na medida em que souberdes fazer da castidade, dentro e
fora do matrimônio, um baluarte das vossas esperanças futuras. Repito aqui para
todos vós que «o eros quer nos conduzir para além de nós próprios, para Deus,
mas por isso mesmo requer um caminho de ascese, renúncias, purificações e
saneamentos» (Carta encl. Deus caritas est, (25/12/2005), n. 5). Em poucas
palavras, requer espírito de sacrifício e de renúncia por um bem maior, que é
precisamente o amor de Deus sobre todas as coisas. Procurai resistir com
fortaleza às insídias do mal existente em muitos ambientes, que vos leva a uma
vida dissoluta, paradoxalmente vazia, ao fazer perder o bem precioso da vossa
liberdade e da vossa verdadeira felicidade. O amor verdadeiro “procurará sempre
mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doarse- á e
desejará existir para o outro” (Ib. n. 7) e, por isso, será sempre mais fiel,
indissolúvel e fecundo.
Para isso, contais com a ajuda de Jesus Cristo que, com a sua graça, fará isto
possível (cf. Mt 19,26). A vida de fé e de oração vos conduzirá pelos caminhos
da intimidade com Deus, e de compreensão da grandeza dos planos que Ele tem para
cada um. “Por amor do reino dos céus” (ib., 12), alguns são chamados a uma
entrega total e definitiva, para consagrar-se a Deus na vida religiosa, “exímio
dom da graça”, como foi definido pelo Concílio Vaticano II (Decr. Perfectae
caritatis, n.12). Os consagrados que se entregam totalmente a Deus, sob a moção
do Espírito Santo, participam na missão de Igreja, testemunhando a esperança no
Reino celeste entre todos os homens. Por isso, abençôo e invoco a proteção
divina a todos os religiosos que dentro da seara do Senhor se dedicam a Cristo e
aos irmãos. As pessoas consagradas merecem, verdadeiramente, a gratidão da
comunidade eclesial: monges e monjas, contemplativos e contemplativas,
religiosos e religiosas dedicados às obras de apostolado, membros de institutos
seculares e das sociedades de vida apostólica, eremitas e virgens consagradas.
“A sua existência dá testemunho do amor a Cristo quando eles se encaminham pelo
seu seguimento, tal como este se propõe no Evangelho e, com íntima alegria,
assumem o mesmo estilo de vida que Ele escolheu para Si” (Congr. para os Inst.
de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica: Instr. Partir de Cristo,
n. 5). Faço votos de que, neste momento de graça e de profunda comunhão em
Cristo, o Espírito Santo desperte no coração de tantos jovens um amor apaixonado
no seguimento e imitação de Jesus Cristo casto, pobre e obediente, voltado
completamente à glória do Pai e ao amor dos irmãos e irmãs.
6.O Evangelho nos assegura que aquele jovem, que veio correndo ao encontro de
Jesus, era muito rico. Entendemos esta riqueza não apenas no plano material. A
própria juventude é uma riqueza singular. É preciso descobri-la e valorizá-la.
Jesus lhe deu tal valor que convidou esse jovem para participar de sua missão de
salvação. Tinha todas as condições para uma grande realização e uma grande obra.
Mas o Evangelho nos refere que esse jovem se entristeceu com o convite. Foi
embora abatido e triste. Este episódio nos faz refletir mais uma vez sobre a
riqueza da juventude. Não se trata, em primeiro lugar, de bens materiais, mas da
própria vida, com os valores inerentes à juventude. Provém de uma dupla herança:
a vida, transmitida de geração em geração, em cuja origem primeira está Deus,
cheio de sabedoria e de amor; e a educação que nos insere na cultura, a tal
ponto que, em certo sentido, podemos dizer que somos mais filhos da cultura e
por isso da fé, do que da natureza. Da vida brota a liberdade que, sobretudo
nesta fase se manifesta como responsabilidade. E o grande momento da decisão,
numa dupla opção: uma quanto ao estado de vida e outra quanto à profissão.
Responde à questão: que fazer com a vida?
Em outras palavras, a juventude se afigura como uma riqueza porque leva à
descoberta da vida como um dom e como uma tarefa. O jovem do Evangelho percebeu
a riqueza de sua juventude. Foi até Jesus, o Bom Mestre, para buscar uma
orientação. Mas na hora da grande opção não teve coragem de apostar tudo em
Jesus Cristo. Conseqüentemente saiu dali triste e abatido. É o que acontece
todas as vezes que nossas decisões fraquejam e se tornam mesquinhas e
interesseiras. Sentiu que faltou generosidade, o que não lhe permitiu uma
realização plena. Fechou-se sobre sua riqueza, tornando-a egoísta.
Jesus ressentiu-se com a tristeza e a mesquinhez do jovem que o viera procurar.
Os Apóstolos, como todos e todas vós hoje, preenchem esta lacuna deixada por
aquele jovem que se retirou triste e abatido. Eles e nós estamos alegres porque
sabemos em quem acreditamos (2 Tim 1,12). Sabemos e testemunhamos com nossa
própria vida que só Ele tem palavras de vida eterna (Jo 6,68). Por isso, com São
Paulo, podemos exclamar: alegrai-vos sempre no Senhor (Fil 4,4).
7.Meu apelo de hoje, a vós jovens, que viestes a este encontro, é que não
desperdiceis vossa juventude. Não tenteis fugir dela. Vivei-a intensamente.
Consagrai-a aos elevados ideais da fé e da solidariedade humana.
Vós, jovens, não sois apenas o futuro da Igreja e da humanidade, como uma
espécie de fuga do presente. Pelo contrário: vós sois o presente jovem da Igreja
e da humanidade. Sois seu rosto jovem. A Igreja precisa de vós, como jovens,
para manifestar ao mundo o rosto de Jesus Cristo, que se desenha na comunidade
cristã. Sem o rosto jovem a Igreja se apresentaria desfigurada.
Queridos jóvenes, dentro de poco inauguraré la Quinta Conferencia del Episcopado
Latinoamericano. Os pido que sigáis con atención sus trabajos; que participéis
en sus debates; que recéis por sus frutos. Como ocurrió con las Conferencias
anteriores, también ésta marcará de modo significativo los próximos diez años de
Evangelización en América Latina y en el Caribe. Nadie debe quedar al margen o
permanecer indiferente ante este esfuerzo de la Iglesia, y mucho menos los
jóvenes. Vosotros con todo derecho formáis parte de la Iglesia, la cual
representa el rostro de Jesucristo para América Latina y el Caribe.
Je salue les francophones qui vivent sur le Continent latino-américain, les
invitant à être des témoins de l’Évangile et des acteurs de la vie ecclésiale.
Ma prière vous rejoint tout particulièrement, vous les jeunes, vous êtes appelés
à construire votre vie sur le Christ et sur les valeurs humaines fondamentales.
Que tous se sentent invités à collaborer pour édifier un monde de justice et de
paix.
Dear young friends, like the young man in the Gospel, who asked Jesus “what must
I do to have eternal life?”, all of you are searching for ways of responding
generously to God’s call. I pray that you may hear his saving word and become
his witnesses to the people of today. May God pour out upon all of you his
blessings of peace and joy.
Queridos jovens, Cristo vos chama a serem santos. Ele mesmo vos convoca e quer
andar convosco, para animar com Seu espírito os passos do Brasil neste início do
terceiro milênio da era cristã. Peço à Senhora Aparecida que vos conduza, com
seu auxílio materno e vos acompanhe ao longo da vida.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Homilia do Papa Bento XVI na Missa de
Canonização do Beato Frei Galvão

Senhores Cardeais
Senhor Arcebispo de São Paulo e Bispos do Brasil e da América Latina
Distintas autoridades
Irmãs e Irmãos em Cristo,
«Bendirei continuamente ao Senhor / seu louvor não deixará meus lábios» [Sl
33,2]
1.Alegremos-nos no Senhor, neste dia em que contemplamos outra das maravilhas de
Deus que, por sua admirável providência, nos permite saborear um vestígio da sua
presença, neste ato de entrega de Amor representado no Santo Sacrifício do
Altar.
Sim, não deixemos de louvar ao nosso Deus. Louvemos todos nós, povos do Brasil e
da América, cantemos ao Senhor as suas maravilhas, porque fez em nós grandes
coisas. Hoje, a Divina sabedoria permite que nos encontremos ao redor do seu
altar em ato de louvor e de agradecimento por nos ter concedido a graça da
Canonização do Frei Antonio de Sant’Anna Galvão.
Quero agradecer as carinhosas palavras do Arcebispo de São Paulo, que foi a voz
de todos vós. Agradeço a presença de cada um e de cada uma, quer sejam moradores
desta grande cidade ou vindos de outras cidades e nações. Alegro-me que através
dos meios de comunicação, minhas palavras e as expressões do meu afeto possam
entrar em cada casa e em cada coração. Tenham certeza: o Papa vos ama, e vos ama
porque Jesus Cristo vos ama.
Nesta solene celebração eucarística foi proclamado o Evangelho no qual Cristo,
em atitude de grande enlevo, proclama: «Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da
terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos
pequenos» (Mt 11,25). Por isso, sinto-me feliz porque a elevação do Frei Galvão
aos altares ficará para sempre emoldurada na liturgia que hoje a Igreja nos
oferece. Saúdo com afeto, a toda a comunidade franciscana e, de modo especial as
monjas concepcionistas que, do Mosteiro da Luz, da Capital paulista, irradiam a
espiritualidade e o carisma do primeiro brasileiro elevado à glória dos altares.
2.Demos graças a Deus pelos contínuos benefícios alcançados pelo poderoso
influxo evangelizador que o Espírito Santo imprimiu em tantas almas através do
Frei Galvão. O carisma franciscano, evangelicamente vivido, produziu frutos
significativos através do seu testemunho de fervoroso adorador da Eucaristia, de
prudente e sábio orientador das almas que o procuravam e de grande devoto da
Imaculada Conceição de Maria, de quem ele se considerava ‘filho e perpétuo
escravo’.
Deus vem ao nosso encontro, “procura conquistar-nos - até à Última Ceia, até ao
Coração trespassado na cruz, até as aparições e as grandes obras pelas quais
Ele, através da ação dos Apóstolos, guiou o caminho da Igreja nascente” (Carta
encl. Deus caritas est, 17). Ele se revela através da sua Palavra, nos
Sacramentos, especialmente da Eucaristia. Por isso, a vida da Igreja é
essencialmente eucarística. O Senhor, na sua amorosa providência deixou-nos um
sinal visível da sua presença.
Quando contemplarmos na Santa Missa o Senhor, levantado no alto pelo sacerdote,
depois da Consagração do pão e do vinho, ou o adorarmos com devoção exposto no
Ostensório renovemos com profunda humildade nossa fé, como fazia Frei Galvão em
“laus perennis”, em atitude constante de adoração. Na Sagrada Eucaristia está
contido todo o bem espiritual da Igreja, ou seja, o mesmo Cristo, nossa Páscoa,
o Pão vivo que desceu do Céu vivificado pelo Espírito Santo e vivificante porque
dá Vida aos homens. Esta misteriosa e inefável manifestação do amor de Deus pela
humanidade ocupa um lugar privilegiado no coração dos cristãos. Eles devem poder
conhecer a fé da Igreja, através dos seus ministros ordenados, pela
exemplaridade com que estes cumprem os ritos prescritos que estão sempre a
indicar na liturgia eucarística o cerne de toda obra de evangelização. Por sua
vez, os fiéis devem procurar receber e reverenciar o Santíssimo Sacramento com
piedade e devoção, querendo acolher ao Senhor Jesus com fé e sempre, quando
necessário, sabendo recorrer ao Sacramento da reconciliação para purificar a
alma de todo pecado grave.
3.Significativo é o exemplo do Frei Galvão pela sua disponibilidade para servir
o povo sempre quando era solicitado. Conselheiro de fama, pacificador das almas
e das famílias, dispensador da caridade especialmente dos pobres e dos enfermos.
Muito procurado para as confissões, pois era zeloso, sábio e prudente. Uma
característica de quem ama de verdade é não querer que o Amado seja ofendido,
por isso a conversão dos pecadores era a grande paixão do nosso Santo. A Irmã
Helena Maria, que foi a primeira “recolhida” destinada a dar início ao
“Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição”, testemunhou aquilo que Frei Galvão
disse: “Rezai para que Deus Nosso Senhor levante os pecadores com o seu potente
braço do abismo miserável das culpas em que se encontram” . Possa essa delicada
advertência servir-nos de estímulo para reconhecer na misericórdia divina o
caminho para a reconciliação com Deus e com o próximo e para a paz das nossas
consciências.
4.Unidos em comunhão suprema com o Senhor na Eucaristia e reconciliados com Deus
e com o nosso próximo, seremos portadores daquela paz que o mundo não pode dar.
Poderão os homens e as mulheres deste mundo encontrar a paz se não se
conscientizarem acerca da necessidade de se reconciliarem com Deus, com o
próximo e consigo mesmos? De elevado significado foi, neste sentido, aquilo que
a Câmara do Senado de São Paulo escreveu ao Ministro Provincial dos Franciscanos
no final do século XVIII, definindo Frei Galvão como “homem de paz e de
caridade”. Que nos pede o Senhor?: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amo».
Mas logo a seguir acrescenta: que «deis fruto e o vosso fruto permaneça» (cf. Jo
15, 12.16). E que fruto nos pede Ele, senão que saibamos amar, inspirando-nos no
exemplo do Santo de Guaratinguetá?
A fama da sua imensa caridade não tinha limites. Pessoas de toda a geografia
nacional iam ver Frei Galvão que a todos acolhia paternalmente. Eram pobres,
doentes no corpo e no espírito que lhe imploravam ajuda. Jesus abre o seu
coração e nos revela o fulcro de toda a sua mensagem redentora: «Ninguém tem
maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos» (ib.v.13). Ele mesmo
amou até entregar sua vida por nós sobre a Cruz. Também a ação da Igreja e dos
cristãos na sociedade deve possuir esta mesma inspiração. As pastorais sociais
se forem orientadas para o bem dos pobres e dos enfermos, levam em si mesmas
este sigilo divino. O Senhor conta conosco e nos chama amigos, pois só aos que
se ama desta maneira, se é capaz de dar a vida proporcionada por Jesus com sua
graça.
Como sabemos a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano terá como tema
básico: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos
tenham vida”. Como não ver então a necessidade de acudir com renovado ardor à
chamada, a fim de responder generosamente aos desafios que a Igreja no Brasil e
na América Latina está chamada a enfrentar?
5.«Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei»,
diz o Senhor no Evangelho, (Mt 11,28). Esta é a recomendação final que o Senhor
nos dirige. Como não ver aqui este sentimento paterno e, ao mesmo tempo materno,
de Deus por todos os seus filhos? Maria, a Mãe de Deus e Mãe nossa, se encontra
particularmente ligada a nós neste momento. Frei Galvão, assumiu com voz
profética a verdade da Imaculada Conceição. Ela, a Tota Pulchra, a Virgem
Puríssima, que concebeu em seu seio o Redentor dos homens e foi preservada de
toda mancha original, quer ser o sigilo definitivo do nosso encontro com Deus,
nosso Salvador. Não há fruto da graça na história da salvação que não tenha como
instrumento necessário a mediação de Nossa Senhora.
De fato, este nosso Santo entregou-se de modo irrevocável à Mãe de Jesus desde a
sua juventude, querendo pertencer-lhe para sempre e escolhendo a Virgem Maria
como Mãe e Protetora das suas filhas espirituais. Queridos amigos e amigas, que
belo exemplo a seguir deixou-nos Frei Galvão! Como soam atuais para nós, que
vivemos numa época tão cheia de hedonismo, as palavras que aparecem na Cédula de
consagração da sua castidade: “tirai-me antes a vida que ofender o vosso bendito
Filho, meu Senhor”. São palavras fortes, de uma alma apaixonada, que deveriam
fazer parte da vida normal de cada cristão, seja ele consagrado ou não, e que
despertam desejos de fidelidade a Deus dentro ou fora do matrimônio. O mundo
precisa de vidas limpas, de almas claras, de inteligências simples que rejeitem
ser consideradas criaturas objeto de prazer. É preciso dizer não àqueles meios
de comunicação social que ridicularizam a santidade do matrimônio e a virgindade
antes do casamento.
É neste momento que teremos em Nossa Senhora a melhor defesa contra os males que
afligem a vida moderna; a devoção mariana é garantia certa de proteção maternal
e de amparo na hora da tentação. Não será esta misteriosa presença da Virgem
Puríssima, quando invocarmos proteção e auxílio à Senhora Aparecida? Vamos
depositar em suas mãos santíssimas a vida dos sacerdotes e leigos consagrados,
dos seminaristas e de todos os vocacionados para a vida religiosa.
6.Queridos amigos, deixai-me concluir evocando a Vigília de Oração de Marienfeld
na Alemanha: diante de uma multidão de jovens, quis definir os santos da nossa
época como verdadeiros reformadores. E acrescentava: “só dos Santos, só de Deus
provém a verdadeira revolução, a mudança decisiva do mundo” (Homilia,
25/08/2005). Este é o convite que faço hoje a todos vós, do primeiro ao último,
nesta imensa Eucaristia. Deus disse: «Sede santos, como Eu sou santo» (Lv
11,44). Agradeçamos a Deus Pai, a Deus Filho, a Deus Espírito Santo, dos quais
nos vêm, por intercessão da Virgem Maria, todas as bênçãos do céu; este dom que,
juntamente com a fé é a maior graça que o Senhor pode conceder a uma criatura: o
firme anseio de alcançar a plenitude da caridade, na convicção de que não só é
possível, como também necessária a santidade, cada qual no seu estado de vida,
para revelar ao mundo o verdadeiro rosto de Cristo, nosso amigo! Amém!
Mensagem de Bento XVI aos Bispos do Brasil na
Catedral da Sé

Amados irmãos no Episcopado,
«O Filho de Deus aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve. Tendo
chegado à perfeição, tornou-se causa de eterna salvação para todos os que lhe
obedecem» (cf. Hb 5,8-9).
1.O texto que acabamos de ouvir na Leitura Breve das Vésperas de hoje contém um
ensinamento profundo.
Também neste caso constatamos como a Palavra de Deus é viva e mais penetrante do
que uma espada de dois gumes, chega até à juntura da alma, reconfortando-a,
estimulando os seus fiéis servidores (cf. Hb 4,12).
Agradeço a Deus por ter permitido encontrar-me com um Episcopado de prestígio,
que está à frente de uma das mais numerosas populações católicas do mundo. Eu
vos saúdo com sentimentos de profunda comunhão e de afeto sincero, bem
conhecendo a dedicação com que seguis as comunidades que vos foram confiadas. A
calorosa acolhida do Senhor Pároco da Catedral da Sé e de todos os presentes
fez-me sentir em casa, nesta grande Casa comum que é nossa Santa Mãe a Igreja
Católica. Dirijo uma especial saudação à nova Presidência da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil e, ao agradecer as palavras do seu Presidente, Dom
Geraldo Lyrio Rocha, faço votos de um profícuo desempenho na tarefa de
consolidar sempre mais a comunhão entre os bispos e de promover a ação pastoral
comum num território de dimensões continentais.
2.O Brasil está acolhendo os participantes da V Conferência do Episcopado
Latino-americano com a sua tradicional hospitalidade. Exprimo o meu
agradecimento pela cortês recepção dos seus membros e o meu profundo apreço
pelas orações do povo brasileiro, formuladas especialmente em prol do bom êxito
do encontro dos bispos em Aparecida.
É um grande evento eclesial que se situa no âmbito do esforço missionário que a
América Latina deverá propor-se, precisamente a partir daqui, do solo
brasileiro. Foi por isso que quis dirigir-me inicialmente a vós, Bispos do
Brasil, evocando aquelas palavras densas de conteúdo da Carta aos Hebreus: «O
Filho de Deus aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve. E uma vez
chegado ao seu termo, tornou-se autor da salvação para todos os que lhe
obedecem» (Hb 5, 8-9). Exuberante no seu significado, este versículo fala da
compaixão de Deus para conosco, concretizada na paixão de seu Filho; e fala da
sua obediência, da sua adesão livre e consciente aos desígnios do Pai,
explicitada especialmente na oração no monte das Oliveiras: «Não seja feita a
minha vontade, mas a tua» (Lc 22,42). Assim, é o próprio Jesus a nos ensinar que
a verdadeira via de salvação consiste em conformar a nossa vontade à vontade de
Deus. É exatamente o que pedimos na terceira invocação da oração do Pai Nosso:
que seja feita a vontade de Deus, assim na terra como no céu, porque onde reina
a vontade de Deus, aí está presente o reino de Deus. Jesus nos atrai para a sua
vontade, a vontade do Filho, e deste modo nos guia para a salvação. Indo ao
encontro da vontade de Deus, com Jesus Cristo, abrimos o mundo ao reino de Deus.
Nós Bispos somos convocados para manifestar essa verdade central, pois estamos
vinculados diretamente a Cristo, Bom Pastor. A missão que nos é confiada, como
Mestres da fé, consiste em recordar, como o mesmo Apóstolo das Gentes escrevia,
que o nosso Salvador «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao
conhecimento da verdade» (1Tm 2, 4-6). Esta é a finalidade, e não outra, a
finalidade da Igreja, a salvação das almas, uma a uma. Por isso o Pai enviou seu
Filho, e «como o Pai me enviou, também eu vos envio» (Jo 20,21). Daqui, o
mandato de evangelizar: «Ide, pois, ensinai a todas as nações; batizai-as em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos
prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo» (Mt
28,19-20). São palavras simples e sublimes nas quais estão indicadas a obrigação
de pregar a verdade da fé, a urgência da vida sacramental, a promessa da
contínua assistência de Cristo à sua Igreja. Estas são realidades fundamentais e
se referem à instrução na fé e na moral cristã, e à prática dos sacramentos.
Onde Deus e a sua vontade não são conhecidos, onde não existe a fé em Jesus
Cristo e nem a sua presença nas celebrações sacramentais, falta o essencial
também para a solução dos urgentes problemas sociais e políticos. A fidelidade
ao primado de Deus e da sua vontade, conhecida e vivida em comunhão com Jesus
Cristo, é o dom essencial, que nós Bispos e sacerdotes devemos oferecer ao nosso
povo (cf. Populorum progressio 21).
3.O ministério episcopal nos impele ao discernimento da vontade salvífica, na
busca de uma pastoral que eduque o Povo de Deus a reconhecer e acolher os
valores transcendentes, na fidelidade ao Senhor e ao Evangelho.
É verdade que os tempos de hoje são difíceis para a Igreja e muitos dos seus
filhos estão atribulados. A vida social está atravessando momentos de confusão
desnorteadora. Ataca-se impunemente a santidade do matrimônio e da família,
iniciando-se por fazer concessões diante de pressões capazes de incidir
negativamente sobre os processos legislativos; justificam-se alguns crimes
contra a vida em nome dos direitos da liberdade individual; atenta-se contra a
dignidade do ser humano; alastra-se a ferida do divórcio e das uniões livres.
Ainda mais: no seio da Igreja, quando o valor do compromisso sacerdotal é
questionado como entrega total a Deus através do celibato apostólico e como
disponibilidade total para servir às almas, dando-se preferência às questões
ideológicas e políticas, inclusive partidárias, a estrutura da consagração total
a Deus começa a perder o seu significado mais profundo. Como não sentir tristeza
em nossa alma? Mas tende confiança: a Igreja é santa e incorruptível (cf. Ef
5,27). Dizia Santo Agostinho: “Vacilará a Igreja se vacila o seu fundamento, mas
poderá talvez Cristo vacilar? Visto que Cristo não vacila, a Igreja permanecerá
intacta até o fim dos tempos” (Enarrationes in Psalmos, 103,2,5; PL, 37, 1353.)
Entre os problemas que afligem a vossa solicitude pastoral está, sem dúvida, a
questão dos católicos que abandonam a vida eclesial. Parece claro que a causa
principal, dentre outras, deste problema, possa ser atribuída à falta de uma
evangelização em que Cristo e a sua Igreja estejam no centro de toda explanação.
As pessoas mais vulneráveis ao proselitismo agressivo das seitas - que é motivo
de justa preocupação – e incapazes de resistir às investidas do agnosticismo, do
relativismo e do laicismo são geralmente os batizados não suficientemente
evangelizados, facilmente influenciáveis porque possuem uma fé fragilizada e,
por vezes, confusa, vacilante e ingênua, embora conservem uma religiosidade
inata. Na Encíclica Deus caritas est recordei que “Ao início do ser cristão, não
há uma decisão ética ou uma grande idéia, mas o encontro com um acontecimento,
com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”
(n. 1). É necessário, portanto, encaminhar a atividade apostólica como uma
verdadeira missão dentro do rebanho que constitui a Igreja Católica no Brasil,
promovendo uma evangelização metódica e capilar em vista de uma adesão pessoal e
comunitária a Cristo. Trata-se efetivamente de não poupar esforços na busca dos
católicos afastados e daqueles que pouco ou nada conhecem sobre Jesus Cristo,
através de uma pastoral da acolhida que os ajude a sentir a Igreja como lugar
privilegiado do encontro com Deus e mediante um itinerário catequético
permanente.
Uma missão evangelizadora que convoque todas as forças vivas deste imenso
rebanho. Meu pensamento dirigi-se, portanto, aos sacerdotes, religiosos,
religiosas e leigos que se prodigalizam, muitas vezes com imensas dificuldades,
para a difusão da verdade evangélica. Dentre eles, muitos colaboram ou
participam ativamente nas Associações, nos Movimentos e em outras novas
realidades eclesiais que, em comunhão com seus Pastores e de acordo com as
orientações diocesanas, levam sua riqueza espiritual, educativa e missionária ao
coração da Igreja, como preciosa experiência e proposta de vida cristã. Neste
esforço evangelizador, a comunidade eclesial se destaca pelas iniciativas
pastorais, ao enviar, sobretudo entre as casas das periferias urbanas e do
interior, seus missionários, leigos ou religiosos, procurando dialogar com todos
em espírito de compreensão e de delicada caridade. Mas se as pessoas encontradas
estão numa situação de pobreza, é preciso ajudá-las, como faziam as primeiras
comunidades cristãs, praticando a solidariedade, para que se sintam amadas de
verdade. O povo pobre das periferias urbanas ou do campo precisa sentir a
proximidade da Igreja, seja no socorro das suas necessidades mais urgentes, como
também na defesa dos seus direitos e na promoção comum de uma sociedade
fundamentada na justiça e na paz. Os pobres são os destinatários privilegiados
do Evangelho e um Bispo, modelado segundo a imagem do Bom Pastor, deve estar
particularmente atento em oferecer o divino bálsamo da fé, sem descuidar do “pão
material”. Como pude evidenciar na Encíclica Deus caritas est, “a Igreja não
pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os
Sacramentos nem a Palavra” (n. 22). A vivência sacramental, especialmente
através da Confissão e da Eucaristia, adquire aqui uma importância de primeira
grandeza. A vós Pastores cabe a principal tarefa de assegurar a participação dos
fiéis na vida eucarística e no Sacramento da Reconciliação; deveis estar
vigilantes para que a confissão e a absolvição dos pecados sejam, de modo
ordinário, individual, tal como o pecado é um fato profundamente pessoal (cf.
Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et penitentia, n. 31, III). Somente a
impossibilidade física ou moral escusa o fiel desta forma de confissão, podendo
neste caso obter a reconciliação por outros meios (Cân. 960; cf. Compêndio do
Catecismo da Igreja Católica, n. 311). Por isso, convém incutir nos sacerdotes a
prática da generosa disponibilidade para atender aos fiéis que recorrem ao
Sacramento da misericórdia de Deus (Carta ap. Misericordia Dei, 2).
4.Recomeçar a partir de Cristo em todos os âmbitos da missão. Redescobrir em
Jesus o amor e a salvação que o Pai nos dá, pelo Espírito Santo. Esta é a
substância, a raiz, da missão episcopal que faz do Bispo o primeiro responsável
pela catequese diocesana. Com efeito, ele tem a direção superior da catequese,
rodeando-se de colaboradores competentes e merecedores de confiança. É óbvio,
portanto, que os seus catequistas não são simples comunicadores de experiências
de fé, mas devem ser autênticos transmissores, sob a guia do seu Pastor, das
verdades reveladas. A fé é uma caminhada conduzida pelo Espírito Santo que se
resume em duas palavras: conversão e seguimento. Essas duas palavras-chave da
tradição cristã indicam com clareza, que a fé em Cristo implica uma práxis de
vida baseada no dúplice mandamento do amor, a Deus e ao próximo, e exprimem
também a dimensão social da vida cristã.
A verdade supõe um conhecimento claro da mensagem de Jesus, transmitida graças a
uma compreensível linguagem inculturada, mas necessariamente fiel à proposta do
Evangelho. Nos tempos atuais é urgente um conhecimento adequado da fé, como está
bem sintetizada no Catecismo da Igreja Católica com o seu Compêndio. Faz parte
da catequese essencial também a educação às virtudes pessoais e sociais do
cristão, como também a educação à responsabilidade social. Exatamente porque fé,
vida e celebração da sagrada liturgia como fonte de fé e de vida, são
inseparáveis, é necessária uma mais correta aplicação dos princípios indicados
pelo Concílio Vaticano II no que diz respeito à Liturgia da Igreja, incluindo as
disposições contidas no Diretório para os Bispos (nn.145-151), com o propósito
de devolver à Liturgia o seu caráter sagrado. É com esta finalidade que o meu
Venerável predecessor na Cátedra de Pedro, João Paulo II, quis renovar “um
veemente apelo para que as normas litúrgicas sejam observadas, com grande
fidelidade, na celebração eucarística” (...) “A liturgia jamais é propriedade
privada de alguém, nem do celebrante, nem da comunidade onde são celebrados os
santos mistérios” (Carta encl. Ecclesia de Eucharistia, n. 52). Redescobrir e
valorizar a obediência às normas litúrgicas por parte dos Bispos, como
“moderadores da vida litúrgica da Igreja”, significa testemunhar a própria
Igreja, una e universal que preside na caridade.
5.É necessário um salto de qualidade na vivência cristã do povo, para que possa
testemunhar a sua fé de forma límpida e esclarecida. Essa fé, celebrada e
participada na liturgia e na caridade, nutre e fortifica a comunidade dos
discípulos do Senhor e os edifica como Igreja missionária e profética. O
Episcopado brasileiro possui uma estrutura de grande envergadura, cujos
Estatutos foram há pouco revistos para o seu melhor desempenho e uma dedicação
mais exclusiva ao bem da Igreja. O Papa veio ao Brasil para pedir-vos que, no
seguimento da Palavra de Deus, todos os Veneráveis Irmãos no episcopado saibam
ser portadores de eterna salvação para todos os que lhe obedecem (cf. Hb 5,10).
Nós, pastores, na esteira do compromisso assumido como sucessores dos Apóstolos,
devemos ser fiéis servidores da Palavra, sem visões redutivas e confusões na
missão que nos é confiada. Não basta observar a realidade a partir da fé; é
preciso trabalhar com o Evangelho nas mãos e fundamentados na correta herança da
Tradição Apostólica, sem interpretações movidas por ideologias racionalistas.
Assim é que, “nas Igrejas particulares compete ao Bispo conservar e interpretar
a Palavra de Deus e julgar com autoridade aquilo que está ou não de acordo com
ela” (Congr. para a Doutrina da Fé, Instr. sobre a vocação eclesial do teólogo,
n. 19). Ele, como Mestre de fé e de doutrina, poderá contar com a colaboração do
teólogo que “na sua dedicação ao serviço da verdade, deverá, para permanecer
fiel à sua função, levar em conta a missão própria do Magistério e colaborar com
ele” (ib. 20). O dever de conservar o depósito da fé e de manter a sua unidade
exige estreita vigilância, de modo que este seja “conservado e transmitido
fielmente e que as posições particulares sejam unificadas na integridade do
Evangelho de Cristo” (Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos, n. 126).
Eis então a enorme responsabilidade que assumis como formadores do povo,
mormente dos vossos sacerdotes e religiosos. São eles vossos fiéis
colaboradores. Conheço o empenho com que procurais formar as novas vocações
sacerdotais e religiosas. A formação teológica e nas disciplinas eclesiásticas
exige uma constante atualização, mas sempre de acordo com o Magistério autentico
da Igreja. Faço apelo ao vosso zelo sacerdotal e ao sentido de discernimento das
vocações, também para saber complementar a dimensão espiritual, psico-afetiva,
intelectual e pastoral em jovens maduros e disponíveis ao serviço da Igreja. Um
bom e assíduo acompanhamento espiritual é indispensável para favorecer o
amadurecimento humano e evita o risco de desvios no campo da sexualidade. Tende
sempre presente que o celibato sacerdotal é um dom “que a Igreja recebeu e quer
guardar, convencida de que ele é um bem para ela e para o mundo” (Diretório para
o ministério e a vida dos presbíteros, n. 57). Gostaria de recomendar à vossa
solicitude também as Comunidades religiosas que se inserem na vida da própria
Diocese. É uma contribuição preciosa que oferecem, pois, apesar da “diversidade
de dons, o Espírito é o mesmo” (1 Cor 12,4). A Igreja não pode senão manifestar
alegria e apreço por tudo aquilo que os Religiosos vêm realizando mediante
Universidades, escolas, hospitais e outras obras e instituições.
6.Conheço a dinâmica das vossas Assembléias e o esforço por definir os diversos
planos pastorais, que dêem prioridade à formação do clero e dos agentes da
pastoral. Alguns dentre vós fomentastes movimentos de evangelização para
facilitar o agrupamento dos fiéis numa linha de ação. O Sucessor de Pedro conta
convosco para que vossa preparação se apóie sempre naquela espiritualidade de
comunhão e de fidelidade à Sé de Pedro, a fim de garantir que a ação do Espírito
não seja vã. Com efeito, a integridade da fé, junto à disciplina eclesial, é, e
será sempre, tema que exigirá atenção e desvelo por parte de todos vós,
sobretudo quando se trata de tirar as consequências do fato que existe «uma só
fé e um só batismo». Como sabeis, entre os vários documentos que se ocupam da
unidade dos cristãos está o Diretório para o ecumenismo publicado pelo
Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos. O Ecumenismo, ou seja, a busca
da unidade dos cristãos torna-se nesse nosso tempo, no qual se verifica o
encontro das culturas e o desafio do secularismo, uma tarefa sempre mais urgente
da Igreja católica. Com a multiplicação, porém, de sempre novas denominações
cristãs e, sobretudo diante de certas formas de proselitismo, frequentemente
agressivo, o empenho ecumênico torna-se uma tarefa complexa. Em tal contexto é
indispensável uma boa formação histórica e doutrinal, que habilite ao necessário
discernimento e ajude a entender a identidade específica de cada uma das
comunidades, os elementos que dividem e aqueles que ajudam no caminho de
construção da unidade. O grande campo comum de colaboração deveria ser a defesa
dos fundamentais valores morais, transmitidos pela tradição bíblica, contra a
sua destruição numa cultura relativística e consumista; mais ainda, a fé em Deus
criador e em Jesus Cristo, seu Filho encarnado. Além do mais vale sempre o
princípio do amor fraterno e da busca de compreensão e de proximidade mútuas;
mas também a defesa da fé do nosso povo, confirmando-o na feliz certeza, que a
“unica Christi Ecclesia... subsistit in Ecclesia catholica, a successore Petri
et Episcopis in eius communione gubernata” (“a única Igreja de Cristo...
subsiste na Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em
comunhão com ele”) (Lumen gentium 8).
Neste sentido se procederá a um franco diálogo ecumênico, através do Conselho
Nacional das Igrejas Cristãs, zelando pelo pleno respeito das demais confissões
religiosas, desejosas de manter-se em contato com a Igreja Católica no Brasil.
7.Não é nenhuma novidade a constatação de que vosso País convive com um déficit
histórico de desenvolvimento social, cujos traços extremos são o imenso
contingente de brasileiros vivendo em situação de indigência e uma desigualdade
na distribuição da renda que atinge patamares muito elevados. A vós, veneráveis
Irmãos, como hierarquia do povo de Deus, vos compete promover a busca de
soluções novas e cheias de espírito cristão. Uma visão da economia e dos
problemas sociais, a partir da perspectiva da doutrina social da Igreja, leva a
considerar as coisas sempre do ponto de vista da dignidade do homem, que
transcende o simples jogo dos fatores econômicos. Deve-se, por isso, trabalhar
incansavelmente para a formação dos políticos, dos brasileiros que têm algum
poder decisório, grande ou pequeno e, em geral, de todos os membros da
sociedade, de modo que assumam plenamente as próprias responsabilidades e saibam
dar um rosto humano e solidário à economia.
Ocorre formar nas classes políticas e empresariais um autêntico espírito de
veracidade e de honestidade. Quem assume uma liderança na sociedade, deve
procurar prever as conseqüências sociais, diretas e indiretas, a curto e a longo
prazo, das próprias decisões, agindo segundo critérios de maximização do bem
comum, ao invés de procurar ganâncias pessoais.
8.Queridos irmãos, se Deus quiser, encontraremos outras oportunidades para
aprofundar as questões que interpelam a nossa solicitude pastoral conjunta.
Desta vez, desejei, certamente de maneira não exaustiva, expor os temas mais
relevantes que se impõem à minha consideração de Pastor da Igreja universal.
Transmito-vos o meu afetuoso encorajamento que é, ao mesmo tempo, uma fraterna e
sentida súplica: para que procedais e trabalheis sempre, como vindes fazendo, em
concórdia, tendo como vosso fundamento uma comunhão que na Eucaristia encontra o
seu momento culminante e o seu manancial inesgotável. Confio todos vós a Maria
Santíssima, Mãe de Cristo e Mãe da Igreja, enquanto de todo o coração vos
concedo, a cada um de vós e às vossas respectivas Comunidades, a Bênção
Apostólica.
Obrigado!
Mensagem do Papa na Fazenda Esperança

Queridos amigos e amigas,
Eis-Me finalmente na Fazenda Esperança!
1.Com particular afeto, saúdo ao Frei Hans Stapel, fundador da obra social Nossa
Senhora da Glória, também conhecida como Fazenda da Esperança. Desejo desde já
congratular-me com todos vocês, por terem acreditado num ideal de bem e de paz
que este lugar significa.
A todos que se encontram em fase de recuperação, bem como aos reabilitados,
voluntários, famílias, ex-internos e benfeitores de todas as fazendas
representadas nesta ocasião para encontrar-se com o papa, digo: Paz e Bem!
Sei que aqui se encontram reunidos os representantes de diversos países, onde a
Fazenda da Esperança possui sedes viestes ver o papa. Viestes para ouvir e
assimilar o que ele vos queria dizer.
2.A igreja de hoje deve reavivar em si mesma a consciência da tarefa de repropor
ao mundo a voz d'Aquele que disse: "Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não
andará nas trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8,12).
Por sua vez, a tarefa do papa é renovar nos corações essa luz que não ofusca,
pois quer iluminar o íntimo das almas que buscam o verdadeiro bem e a paz, que o
mundo não pode dar. Um fulgor como este, só necessita de um coração aberto aos
anseios divinos. Deus não força, não oprime a liberdade individual; pede só
abertura daquele sacrário da nossa consciência por donde passam todas as
aspirações mais nobres, mas também afetos e paixões desordenadas que ofuscam a
mensagem do Altíssimo.
3."Eis que estou à porta, e bato: Se alguém ouvir a minha voz e me abrir a
porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo" (Ap 3,20). São
palavras divinas que tocam o fundo da alma e que removem até as suas raízes mais
profundas.
A um certo momento da vida, Jesus vem e toca, com suaves batidas, no fundo dos
corações bem dispostos.
A vocês, Ele o fez através de uma pessoa amiga ou de um sacerdote ou,
possivelmente, providenciou uma série de coincidências para dizer que sois
objeto de predileção divina. Mediante a instituição que os abriga, o Senhor
proporcionou esta experiência de recuperação física e espiritual de vital
importância para vocês e seus familiares.
Além disso, a sociedade espera que saibam divulgar este bem precioso da saúde
entre os amigos e membros de toda a comunidade.
Vocês devem ser os embaixadores da esperança! O Brasil possui uma estatística,
das mais relevantes, no que diz respeito à dependência química de drogas e
entorpecentes. E a América Latina não fica atrás. Por isso, digo aos que
comercializam a droga que pensem no mal que estão provocando a uma multidão de
jovens e de adultos de todos os segmentos da sociedade: Deus vai-lhes exigir
satisfações. A dignidade humana não pode ser espezinhada desta maneira. O mal
provocado recebe a mesma reprovação dada por Jesus aos que escandalizavam os
"pequeninos", os preferidos de Deus (cf. Mt 18, 7-10).
4.Mediante uma terapia, que inclui a assistência médica, psicológica e
pedagógica, mas também muita oração, trabalho manual e disciplina, já são
numerosas as pessoas, sobretudo jovens, que conseguiram livrar-se da dependência
química e do álcool e recuperar o sentido da vida.
Desejo manifestar o meu apreço por esta obra, que tem como alicerce espiritual o
carisma de São Francisco e a espiritualidade do Movimento dos Focolares.
A reinserção na sociedade constitui, sem dúvida, uma prova da eficácia da
iniciativa de vocês. Mas o que mais chama atenção, e confirma a validade do
trabalho, são as conversões, o reencontro com Deus e a participação ativa na
vida da igreja. Não basta curar o corpo, é preciso adornar a alma com os mais
preciosos dons divinos conquistados através do batismo.
Vamos agradecer a Deus por ter querido colocar tantas almas no caminho de uma
esperança renovada, com o auxílio do Sacramento do perdão e da celebração da
Eucaristia.
5.Queridos amigos, não poderia deixar passar esta oportunidade para agradecer
também a todos os que colaboram material ou espiritualmente para dar
continuidade à obra social Nossa Senhora da Glória. Que Deus abençoe Frei Hans
Stapel e Nelson Giovanelli Ros por terem acolhido o convite d'Ele para dedicarem
sua vida a vocês.
Abençoe também todos os que trabalham nesta obra: os consagrados e as
consagradas; os voluntários e as voluntárias. Uma bênção especial vai para todas
as pessoas amigas que a sustentam: autoridades, grupos de apoio e todos que amam
a Cristo presente nestes seus filhos prediletos.
Meu pensamento vai agora a muitas outras instituições do mundo inteiro que
trabalham para restituir a vida, e vida nova, a estes nossos irmãos presentes na
nossa sociedade, e que Deus ama com um amor preferencial.
Penso também nos muitos grupos de Alcoólicos Anônimos e de Narcóticos Anônimos,
e na Pastoral da Sobriedade que já trabalha em muitas comunidades, prestando
seus generosos auxílios em favor da vida.
6.A proximidade do santuário de Aparecida nos assegura que a Fazenda da
Esperança nasceu sob as suas bênçãos e o seu olhar maternal. Há muito que venho
pedindo à Mãe, Rainha e Padroeira do Brasil, que estenda seu manto protetor
sobre os que participarão na 5ª Conferencia Geral do Episcopado da América
Latina e do Caribe.
A presença de vocês aqui, supõe uma ajuda considerável para o sucesso desta
grande assembléia; ponham suas orações, sacrifícios e renúncias no altar da
capela, certos de que, no Santo Sacrifício do Altar, estas ofertas subirão aos
céus como um suave aroma na presença do Altíssimo. Conto com a ajuda de vocês.
Que o santo frei Galvão e santa crescência amparem e protejam a cada um. A todos
vocês abençôo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Mensagem do Papa Bento XVI na Basílica de
Aparecida-SP

Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e Presbiterado,
Amados religiosos e todos vós que, impelidos pela voz de Jesus Cristo,
O seguistes por amor! Estimados seminaristas, que vos estais preparando para o
ministério sacerdotal!
Queridos representantes dos Movimentos eclesiais, e todos vós leigos que levais
a força do Evangelho ao mundo do trabalho e da cultura, no seio das famílias,
bem como às vossas paróquias!
1.Como os Apóstolos, juntamente com Maria, «subiram para a sala de cima» e ali
«unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração» (At
1,13-14), assim também hoje nos reunimos aqui no Santuário de Nossa Senhora da
Conceição Aparecida, que é para nós nesta hora «a sala de cima», onde Maria, Mãe
do Senhor, se encontra no meio de nós. Hoje é Ela que orienta a nossa meditação;
Ela nos ensina a rezar. É Ela que nos mostra o modo como abrir nossas mentes e
os nossos corações ao poder do Espírito Santo, que vem para ser transmitido ao
mundo inteiro.
Acabamos de recitar o Rosário. Através dos seus ciclos meditativos, o Divino
Consolador quer nos introduzir no conhecimento de um Cristo que brota da fonte
límpida do texto evangélico. Por sua vez, a Igreja do terceiro milênio se propõe
dar aos cristãos a capacidade de «conhecerem - com palavras de São Paulo - o
mistério de Deus, isto é Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da
sabedoria e da ciência» (Col 2,2-3). Maria Santíssima, a Virgem Pura e sem
Mancha é para nós escola de fé destinada a conduzir-nos e a fortalecer-nos no
caminho que leva ao encontro com o Criador do Céu e da Terra. O Papa veio a
Aparecida com viva alegria para vos dizer primeiramente: "Permanecei na escola
de Maria". Inspirai-vos nos seus ensinamentos, procurai acolher e guardar dentro
do coração as luzes que Ela, por mandato divino, vos envia lá do alto.
Como é bom estarmos aqui reunidos em nome de Cristo, na fé, na fraternidade, na
alegria, na paz, "na oração com Maria, a Mãe de Jesus" (At 1,14). Como é bom,
queridos Presbíteros, Diáconos, Consagrados e Consagradas, Seminaristas e
Famílias Cristãs, estarmos aqui no Santuário Nacional de Nossa Senhora da
Conceição Aparecida, que é Morada de Deus, Casa de Maria e Casa de Irmãos e que
nesses dias se transforma também em Sede da V Conferência Episcopal
Latino-Americana e Caribenha. Como é bom estarmos aqui nesta Basílica Mariana
para onde, neste tempo, convergem os olhares e as esperanças do mundo cristão,
de modo especial da América Latina e do Caribe!
2.Sinto-me muito feliz em estar aqui convosco, em vosso meio! O Papa vos ama! O
Papa vos saúda afetuosamente! Reza por vós! E suplica ao Senhor as mais
preciosas bênçãos para os Movimentos, Associações e as novas realidades
eclesiais, expressão viva da perene juventude da Igreja! Que sejais muito
abençoados! Aqui vai minha saudação muito afetuosa a vós Famílias aqui
congregadas e que representais todas as caríssimas Famílias Cristãs presentes no
mundo inteiro. Alegro-me de modo especialíssimo convosco e vos envio o meu
abraço de paz.
Agradeço a acolhida e a hospitalidade do Povo brasileiro. Desde que aqui cheguei
fui recebido com muito carinho! As várias manifestações de apreço e saudações
demonstram o quanto vós quereis bem, estimais e respeitais o Sucessor do
Apóstolo Pedro. Meu predecessor, o Servo de Deus Papa João Paulo II referiu-se
várias vezes à vossa simpatia e espírito de acolhida fraterna. Ele tinha toda
razão!
3.Saúdo aos estimados padres, aqui presentes, penso e oro por todos os
sacerdotes espalhados pelo mundo inteiro, de modo particular pelos da América
Latina e do Caribe, neles incluindo os que são fidei donum. Quantos desafios,
quantas situações difíceis enfrentais, quanta generosidade, quanta doação,
sacrifícios e renúncias! A fidelidade no exercício do ministério e na vida de
oração, a busca da santidade, a entrega total a Deus a serviço dos irmãos e
irmãs, gastando vossas vidas e energias, promovendo a justiça, a fraternidade, a
solidariedade, a partilha, - tudo isso fala fortemente ao meu coração de Pastor.
O testemunho de um sacerdócio bem vivido dignifica a Igreja, suscita admiração
nos fiéis, é fonte de bênçãos para a Comunidade, é a melhor promoção vocacional,
é o mais autêntico convite para que outros jovens também respondam positivamente
aos apelos do Senhor. É a verdadeira colaboração para a construção do Reino de
Deus!
Agradeço-vos sinceramente e vos exorto a que continueis a viver de modo digno a
vocação que recebestes. Que o ardor missionário, que a vibração por uma
evangelização sempre mais atualizada, que o espírito apostólico autêntico e o
zelo pelas almas estejam presentes em vossas vidas! O meu afeto, orações e
agradecimentos vai também aos sacerdotes idosos e enfermos. A vossa conformação
ao Cristo Sofredor e Ressuscitado é o mais fecundo apostolado! Muito obrigado!
4.Queridos Diáconos e Seminaristas, a vós também que ocupais um lugar especial
no coração do Papa, uma saudação muito fraterna e cordial. A jovialidade, o
entusiasmo, o idealismo, o ânimo em enfrentar com audácia os novos desafios,
renovam a disponibilidade do Povo de Deus, tornam os fiéis mais dinâmicos e
fazem a Comunidade Cristã crescer, progredir, ser mais confiante, feliz e
otimista. Agradeço o testemunho que ofereceis, colaborando com os vossos Bispos
nos trabalhos pastorais das dioceses. Tenhais sempre diante dos olhos a figura
de Jesus, o Bom Pastor, que "veio não para ser servido, mas para servir e dar
sua vida para resgatar a multidão" (Mt 20,28). Sede como os primeiros diáconos
da Igreja: homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo, de sabedoria e de
fé (cf. At 6, 3-5). E vós, Seminaristas dai graças a Deus pela chamada que Ele
vos faz. Lembrai-vos que o Seminário é o "berço da vossa vocação e palco da
primeira experiência de comunhão" (Diretório para o Ministério e vida dos
Presbíteros, 32). Rezo para que sejais, se Deus quiser, sacerdotes santos, fiéis
e felizes em servir a Igreja!
5.Detenho meu olhar e atenção agora sobre vós, estimados Consagrados e
Consagradas, aqui reunidos no Santuário da Mãe, Rainha e Padroeira do Povo
Brasileiro, e também espalhados por todas as partes do mundo.
Vós, religiosos e religiosas, sois uma dádiva, um presente, um dom divino que a
Igreja recebeu do seu Senhor. Agradeço a Deus a vossa vida e o testemunho que
dais ao mundo de um amor fiel a Deus e aos irmãos. Esse amor sem reservas,
total, definitivo, incondicional e apaixonado se expressa no silêncio, na
contemplação, na oração e nas atividades mais diversas que realizais, em vossas
famílias religiosas, em favor da humanidade e principalmente dos mais pobres e
abandonados. Isso tudo suscita no coração dos jovens o desejo de seguir mais de
perto e radicalmente o Cristo Senhor e oferecer a vida para testemunhar aos
homens e mulheres do nosso tempo que Deus é Amor e que vale à pena deixar-se
cativar e fascinar para dedicar-se exclusivamente a Ele (cf. Exort. ap. Vita
Consecrata, 15).
A vida religiosa no Brasil sempre foi marcante e teve um papel de destaque na
obra da evangelização, desde os primórdios da colonização. Ontem ainda, tive a
grande satisfação de presidir a Celebração Eucarística na qual foi canonizado
Santo Antonio de Sant'Anna Galvão, presbítero e religioso franciscano, primeiro
santo nascido no Brasil. Ao seu lado, um outro testemunho admirável de
consagrada é Santa Paulina, fundadora das Irmãzinhas da Imaculada Conceição.
Teria muitos outros exemplos para citar. Que todos eles vos sirvam de estímulo
para viverdes uma consagração total. Deus vos abençoe!
6.Hoy, en vísperas de la apertura de la V Conferencia General de los Obispos de
América Latina y del Caribe, que tendré el gusto de presidir, siento el deseo de
deciros a todos vosotros cuán importante es el sentido de nuestra pertenencia a
la Iglesia, que hace a los cristianos crecer y madurar como hermanos, hijos de
un mismo Dios y Padre. Queridos hombres y mujeres de América Latina sé que
tenéis una gran sed de Dios. Sé que seguís a Aquel Jesús, que dijo “Nadie va al
Padre sino por mí” (Jn 14,6). Por eso el Papa quiere deciros a todos: ¡La
Iglesia es nuestra Casa! ¡Esta es nuestra Casa! ¡En la Iglesia Católica tenemos
todo lo que es bueno, todo lo que es motivo de seguridad y de consuelo! ¡Quien
acepta a Cristo: “Camino, Verdad y Vida”, en su totalidad, tiene garantizada la
paz y la felicidad, en esta y en la otra vida! Por eso, el Papa vino aquí para
rezar y confesar con todos vosotros: ¡vale la pena ser fieles, vale la pena
perseverar en la propia fe! Pero la coherencia en la fe necesita también una
sólida formación doctrinal y espiritual, contribuyendo así a la construcción de
uma sociedad más justa, más humana y cristiana. El Catecismo de la Iglesia
Católica, incluso en su versión más reducida, publicada con el título de
Compendio, ayudará a tener nociones claras sobre nuestra fe. Vamos a pedir, ya
desde ahora, que la venida del Espíritu Santo sea para todos como un nuevo
Pentecostés, a fin de iluminar con la luz de lo Alto nuestros corazones y
nuestra fe.
7.É com grande esperança que me dirijo a todos vós, que se encontram dentro
desta majestosa Basílica, ou que participaram do lado de fora, do Santo Rosário,
para convidá-los a se tornarem profundamente missionários e para levar a Boa
Nova do Evangelho por todos os pontos cardeais da América Latina e do mundo.
Vamos pedir à Mãe de Deus, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, que zele pela
vida de todos os cristãos. Ela, que é a Estrela da Evangelização, guie nossos
passos no caminho do Reino celestial:
Mãe nossa, protegei a família brasileira e latino-americana!
Amparai, sob o vosso manto protetor, os filhos dessa Pátria querida que nos
acolhe, Vós que sois a Advogada junto ao vosso Filho Jesus, dai ao Povo
brasileiro paz constante e prosperidade completa,
Concedei aos nossos irmãos de toda a geografia latino-americana um verdadeiro
ardor missionário irradiador de fé e de esperança, fazei que o vosso clamor de
Fátima pela conversão dos pecadores, seja realidade, e transforme a vida da
nossa sociedade, e vós que, do Santuário de Guadalupe, intercedeis pelo povo do
Continente da esperança, abençoai as suas terras e os seus lares,
Amém.
Homilia do Santo Padre Bento XVI na Missa de
Inauguração da V CELAM em Aparecida-SP

Veneráveis Irmãos no Episcopado,
queridos sacerdotes e vós todos, irmãs e irmãos no Senhor!
Não existem palavras para exprimir a alegria de encontrar-Me convosco para
celebrar esta solene Eucaristia, por ocasião da abertura da Quinta Conferência
Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe. A todos saúdo com muita
cordialidade, de modo particular ao Arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo
Damasceno Assis, agradecendo as palavras que Me foram dirigidas em nome de toda
a assembléia, e os Cardeais Presidentes desta Conferência Geral. Saúdo com
deferência as Autoridades civis e militares que nos honram com a sua presença.
Deste Santuário estendo o meu pensamento, com muito afeto e oração, a todos
aqueles que se nos unem espiritualmente neste dia, de modo especial às
comunidades de vida consagrada, aos jovens engajados em movimentos e
associações, às famílias, bem como aos enfermos e aos anciãos. A todos quero
dizer: «Graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da parte do Senhor Jesus
Cristo» (1Cor 1,13).
Considero um dom especial da Providência que esta Santa Missa seja celebrada
neste tempo e neste lugar. O tempo é o litúrgico do sexto Domingo de Páscoa:
está próxima a festa de Pentecostes, e a Igreja é convidada a intensificar a
invocação ao Espírito Santo. O lugar é o Santuário nacional de Nossa Senhora
Aparecida, coração mariano do Brasil: Maria nos acolhe neste Cenáculo e, como
Mãe e Mestra, nos ajuda a elevar a Deus uma prece unânime e confiante. Esta
celebração litúrgica constitui o fundamento mais sólido da V Conferência, porque
põe na sua base a oração e a Eucaristia, Sacramentum caritatis. Com efeito, só a
caridade de Cristo, emanada pelo Espírito Santo, pode fazer desta reunião um
autentico acontecimento eclesial, um momento de graça para este Continente e
para o mundo inteiro. Esta tarde terei a possibilidade de entrar no mérito dos
conteúdos sugeridos pelo tema da vossa Conferência. Demos agora espaço à Palavra
de Deus, que com alegria acolhemos, com o coração aberto e dócil, a exemplo de
Maria, Nossa Senhora da Conceição, a fim de que, pelo poder do Espírito Santo,
Cristo possa novamente “fazer-se carne” no hoje da nossa história.
A primeira Leitura, tirada dos Atos dos Apóstolos, refere-se ao assim chamado
“Concílio de Jerusalém”, que considerou a questão se aos pagãos convertidos ao
cristianismo dever-se-ia impor a observância da lei mosaica. O texto, deixando
de lado a discussão sobre “os Apóstolos e os anciãos” (15,4-21), transcreve a
decisão final, que vem posta por escrito numa carta e confiada a dois delegados,
a fim de que seja entregue à comunidade de Antioquia (vv. 22-29). Esta página
dos Atos nos é muito apropriada, por termos vindo aqui para uma reunião
eclesial. Fala-nos do sentido do discernimento comunitário em torno dos grandes
problemas que a Igreja encontra ao longo do seu caminho e que vem a ser
esclarecidos pelos “Apóstolos” e pelos “anciãos” com a luz do Espírito Santo, o
qual, como nos narra o Evangelho de hoje, lembra o ensinamento de Jesus Cristo
(cf. Jo 14,26) ajudando assim a comunidade cristã a caminhar na caridade em
busca da verdade plena (cf. Jo 16,13). Os chefes da Igreja discutem e se
defrontam, sempre porém em atitude de religiosa escuta da Palavra de Cristo no
Espírito Santo. Por isso, no final podem afirmar: «Pareceu bem ao Espírito Santo
e a nós ...» (At 15,28). Este é o “método” com o qual nós agimos na Igreja,
tanto nas pequenas como nas grandes assembléias. Não é uma simples questão de
procedimento; é o resultado da mesma natureza da Igreja, mistério de comunhão
com Cristo no Espírito Santo. No caso das Conferências Gerais do Episcopado
Latino-americano e Caribenho, a primeira, realizada no Rio de Janeiro em 1955,
recorreu a uma Carta especial enviada pelo Papa Pio XII, de venerada memória;
nas outras, até a atual, foi o Bispo de Roma que se dirigiu à sede da reunião
continental para presidir as fases iniciais. Com devoto reconhecimento dirigimos
o nosso pensamento aos Servos de Deus Paulo VI e João Paulo II que, nas
Conferências de Medellín, Puebla e Santo Domingo, testemunharam a proximidade da
Igreja universal nas Igrejas que estão na América Latina e que constituem, em
proporção, a maior parte da Comunidade católica.
«Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós ...». Esta é a Igreja: nós, a comunidade
de fiéis, o Povo de Deus, com os seus Pastores chamados a fazer de guia do
caminho; juntos com o Espírito Santo, Espírito do Pai mandado em nome do Filho
Jesus, Espírito d’Aquele que é “maior” de todos e que nos foi dado mediante
Cristo, que se fez “menor” por nossa causa. Espírito Paráclito, Ad-vocatus,
Defensor e Consolador. Ele nos faz viver na presença de Deus, na escuta da sua
Palavra, livres de inquietação e de temor, tendo no coração a paz que Jesus nos
deixou e que o mundo não pode dar (cf. Jo 14, 26-27). O Espírito acompanha a
Igreja no longo caminho que se estende entre a primeira e a segunda vinda de
Cristo: «Vou, e volto a vós» (Jo 14,28), disse Jesus aos Apóstolos. Entre a
“ida” e a “volta” de Cristo está o tempo da Igreja, que é o seu Corpo, estão
esses dois mil anos transcorridos até agora; estão também estes pouco mais de
cinco séculos em que a Igreja fez-se peregrina nas Américas, difundindo nos
fiéis a vida de Cristo através dos Sacramentos e lançando nestas terras a boa
semente do Evangelho, que rendeu trinta, sessenta e até mesmo o cento por um.
Tempo da Igreja, tempo do Espírito Santo: Ele é o Mestre que forma os
discípulos: fá-los enamorar-se de Jesus; educa-os para que escutem a sua
Palavra, a fim de que contemplem a sua Face; conforma-os à sua Humanidade
bem-aventurada, pobre em espírito, aflita, mansa, sedenta de justiça,
misericordiosa, pura de coração, pacífica, perseguida por causa da justiça (cf.
Mt 5,3- 10). Deste modo, graças à ação do Espírito Santo, Jesus torna-se a “Via”
na qual caminha o discípulo. «Se alguém me ama, observará a minha palavra», diz
Jesus no início do trecho evangélico de hoje. «A palavra que tendes ouvido não é
minha, mas sim do Pai que me enviou» (Jo 14,23-24). Como Jesus transmite as
palavras do Pai, assim o Espírito recorda à Igreja as palavras de Cristo (cf. Jo
14,26). E como o amor pelo Pai levava Jesus a alimentar-se da sua vontade, assim
o nosso amor por Jesus se demonstra na obediência pelas suas palavras. A
fidelidade de Jesus à vontade do Pai pode transmitir-se aos discípulos graças ao
Espírito Santo, que derrama o amor de Deus nos seus corações (cf. Rm 5,5).
O Novo Testamento apresenta-nos a Cristo como missionário do Pai. Especialmente
no Evangelho de São João, Jesus fala de si tantas vezes a propósito do Pai que O
enviou ao mundo. Da mesma forma, também no texto de hoje. Jesus diz: « A palavra
que tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou» (Jo 14,24). Neste
momento, queridos amigos, somos convidados a fixar nosso olhar n’Ele, porque a
missão da Igreja subsiste somente em quanto prolongação daquela de Cristo: «Como
o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós» (Jo 20,21). O evangelista põe
em relevo, inclusive de forma plástica, que esta consignação acontece no
Espírito Santo: «Soprou sobre eles dizendo: ‘Recebei o Espírito Santo...’ » (Jo
20,22). A missão de Cristo realizou-se no amor. Ele acendeu no mundo o fogo da
caridade de Deus (cf. Lc 12,49). É o amor que dá a vida: por isso a Igreja é
convidada a difundir no mundo a caridade de Cristo, porque os homens e os povos
«tenham a vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10). A vós também, que
representais a Igreja na América Latina, tenho a alegria entregar de novo
idealmente a minha Encíclica Deus caritas est, com a qual quis indicar a todos o
que é essencial na mensagem cristã. A Igreja se sente discípula e missionária
desse Amor : missionária somente enquanto discípula, isto é capaz de deixar-se
sempre atrair, com renovado enlevo, por Deus que nos amou e nos ama por primeiro
(1Jo 4,10). A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por “atração”:
como Cristo “atrai todos a si” com a força do seu amor, que culminou no
sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que,
associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente
com a caridade do seu Senhor.
Queridos irmãos e irmãs. Este é o rico tesouro do continente Latino americano;
este é seu patrimônio mais valioso: a fé em Deus Amor, que revelou seu rosto em
Jesus Cristo. V acreditais no Deus Amor: esta é vossa força que vence ao mundo,
a alegria que nada e nem ninguém vos poderá arrancar, a paz que Cristo
conquistou para vocês com sua Cruz! Esta é a fé que fez da América Latina o
“Continente da Esperança”. Não é uma ideologia política, nem um movimento
social, como também não é um sistema econômico; é a fé em Deus Amor, encarnado,
morto e ressuscitado em Jesus Cristo, o autêntico fundamento desta esperança que
produziu frutos tão magníficos desde a primeira evangelização até hoje. Assim o
atesta a série de Santos e Beatos que o Espírito suscitou ao longo e largo deste
Continente. O Papa JOÃO PAULO II vos convocou para uma nova evangelização, e vos
respondestes a seu chamado com a generosidade e o compromisso que vos
caracterizam. Eu vo-lo confirmo e, com palavras desta V Conferência, digo-vos:
sede discípulos fiéis, para ser missionários valentes e eficazes.
A segunda Leitura nos apresentou a grandiosa visão da Jerusalém celeste. É uma
imagem de esplêndida beleza, na que nada é simplesmente decorativo, senão que
tudo contribui à perfeita harmonia da Cidade Santa. Escreve o vidente João que
esta “descia do céu, enviada por Deus trazendo a glória de Deus” (Ap21,10). Mas
a glória de Deus é o Amor; por tanto a Jerusalém celeste é ícone da Igreja
inteira, santa e gloriosa, sem mancha nem ruga (cf. Ef 5,27), alumiada no centro
e em todas as partes pela presença de Deus-Caridade. É chamada “noiva”, “a
esposa do Cordeiro” (Ap 20,9), porque nela se realiza a figura nupcial que
encontramos desde o princípio até o fim na revelação bíblica. A Cidade-Algema é
pátria da plena comunhão de Deus com os homens; ela não precisa templo algum nem
nenhuma fonte externa de luz, porque a presença de Deus e do Cordeiro é imanente
e a alumia desde dentro.
Este ícone estupendo tem um valor escatológico: expressa o mistério de beleza
que já constitui a forma da Igreja ainda que ainda não tenha atingido sua
plenitude. É a meta de nossa peregrinação, a pátria que nos espera e pela qual
suspiramos. Vê-la com os olhos da fé, contemplá-la e desejá-la, não deve ser
motivo de evasão da realidade histórica em que vive a Igreja compartilhando as
alegrias e as esperanças, as dores e as angústias da humanidade contemporânea,
especialmente dos mais pobres e dos que sofrem (cf. Gaudium et spes, 1). Se a
beleza da Jerusalém celeste é a glória de Deus, ou seja, seu amor, é
precisamente e somente na caridade como podemos acercar-nos a ela e, em certo
modo, habitar nela. Quem ama ao Senhor Jesus e observa sua palavra experimenta
já neste mundo a misteriosa presença de Deus Uno e Trino, como escutamos no
Evangelho: “Viremos a ele e faremos moradas nele” (Jn 14,23). Por isso, tudo
cristão está chamado a ser pedra viva desta maravilhosa “morada de Deus com os
homens”. Que magnífica vocação!
Uma Igreja inteiramente animada e mobilizada pela caridade de Cristo, Cordeiro
imolado por amor, é a imagem histórica da Jerusalém celeste, antecipação da
Cidade santa, resplandecente da glória de Deus. Ela emana uma força missionária
irresistível, que é a força da santidade. A Virgem Maria alcance para a América
Latina e no Caribe ser abundantemente revestida da força do alto (cf. Lc 24,49)
para irradiar no Continente e em todo o mundo a santidade de Cristo. A Ele seja
dada glória, com o Pai e o Espírito Santo, nos séculos dos séculos. Amém!
Mensagem do Papa na Abertura da V Conferência
de Aparecida-SP

Queridos Irmãos no Episcopado,
amados sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos
Queridos observadores de outras confissões religiosas
É motivo de grande alegria estar hoje aqui convosco, para inaugurar a V
Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, que se celebra
junto ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Quero que as
minhas primeiras palavras sejam de ação de graças e de louvor a Deus pelo grande
dom da fé cristã às populações deste Continente.
Desejo agradecer igualmente as amáveis palavras do Senhor Cardeal Francisco
Javier Errázuriz Ossa, Arcebispo de Santiago do Chile e Presidente do CELAM,
pronunciadas também em nome dos outros dois Presidentes desta Conferência Geral
e dos participantes na mesma.
1.A fé cristã na América Latina
A fé em Deus animou a vida e a cultura destes povos durante cinco séculos. Do
encontro desta fé com as etnias originárias nasceu a rica cultura cristã deste
Continente, manifestada na arte, na música, na literatura e sobretudo nas
tradições religiosas e na idiossincrasia das suas populações, unidas por uma
única história e por um mesmo credo, e formando uma grande sintonia na
diversidade das culturas e das línguas. Na atualidade, esta mesma fé tem que
enfrentar sérios desafios, pois estão em jogo o desenvolvimento harmônico da
sociedade e a identidade católica dos seus povos. A este respeito, a V
Conferência Geral vai refletir sobre esta situação para ajudar os fiéis cristãos
a viver a sua fé com alegria e coerência, a tomar consciência de que são
discípulos e missionários de Cristo, enviados por Ele ao mundo para anunciar e
dar testemunho da nossa fé e amor.
Porém, o que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina
e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus
desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas
tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente.
Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que fez
deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que
veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos
germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim
pelos caminhos do Evangelho. Com efeito, o anúncio de Jesus e do seu Evangelho
não supôs, em qualquer momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem
foi uma imposição de uma cultura alheia. As culturas autênticas não estão
encerradas em si mesmas, nem petrificadas num determinado ponto da história, mas
estão abertas, mais ainda, buscam o encontro com outras culturas, esperam
alcançar a universalidade no encontro e o diálogo com outras formas de vida e
com os elementos que possam levar a uma nova síntese, em que se respeite sempre
a diversidade das expressões e da sua realização cultural concreta.
Em última instância, somente a verdade unifica, e a sua prova é o amor. Por isso
Cristo, dado que é realmente o Logos encarnado, "o amor até ao extremo", não é
alheio a qualquer cultura, nem a qualquer pessoa; pelo contrário, a resposta
desejada no coração das culturas é o que lhes dá a sua identidade última, unindo
a humanidade e respeitando, ao mesmo tempo, a riqueza das diversidades, abrindo
todos ao crescimento na verdadeira humanização, no progresso autêntico. O Verbo
de Deus, tornando-se carne em Jesus Cristo, fez-se também história e cultura.
A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, separando-as de
Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, mas um regresso. Na
realidade, seria uma involução para um momento histórico ancorado no passado.
A sabedoria dos povos originários levou-os felizmente a formar uma síntese entre
as suas culturas e a fé cristã que os missionários lhes ofereciam. Daqui nasceu
a rica e profunda religiosidade popular, em que aparece a alma dos povos
latino-americanos:
- o amor a Cristo sofredor, o Deus da compaixão, do perdão e da reconciliação; o
Deus que nos amou a ponto de se entregar por nós;
- o amor ao Senhor presente na Eucaristia, o Deus encarnado, morto e
ressuscitado para ser Pão de Vida;
- o Deus próximo dos pobres e daqueles que sofrem;
a profunda devoção à Santíssima Virgem de Guadalupe, de Aparecida ou das
diversas invocações nacionais e locais. Quando a Virgem de Guadalupe apareceu ao
índio São João Diogo, disse-lhe estas palavras significativas: "Não estou aqui,
eu que sou a tua Mãe? Não te encontras sob a minha sombra e a minha proteção?
Não sou eu a fonte da tua alegria? Não te encontras debaixo do meu manto, no
cruzamento dos meus braços?" (Nican Mopohua, nn. 118-119).
Esta religiosidade expressa-se também na devoção aos Santos com as suas festas
patronais, no amor ao Papa e aos demais Pastores, no amor à Igreja universal
como grande família de Deus que nunca pode, nem deve, deixar abandonados ou na
miséria os seus próprios filhos. Tudo isto forma o grande mosaico da
religiosidade popular que é o precioso tesouro da Igreja Católica na América
Latina, e que ela deve proteger, promover e, naquilo que for necessário, também
purificar.
2.Continuidade com as outras Conferências
Esta V Conferência Geral celebra-se em continuidade com as outras quatro que a
precederam no Rio de Janeiro, Medellín, Puebla e Santo Domingo. Com o mesmo
espírito que as animou, os Pastores querem dar agora um renovado impulso à
evangelização, a fim de que estes povos continuem a crescer e a amadurecer na
sua fé, para ser luz do mundo e testemunhas de Jesus Cristo com a sua própria
vida.
Depois da IV Conferência Geral, em Santo Domingo, muitas coisas mudaram na
sociedade. A Igreja, que participa nas alegrias e esperanças, nas penas e nos
júbilos dos seus filhos, quer caminhar ao seu lado neste período de tantos
desafios, para lhes infundir sempre esperança e consolação (cf. Gaudium et spes,
1).
No mundo de hoje verifica-se o fenômeno da globalização como um entrelaçamento
de relações a nível planetário. Embora sob certos aspectos seja uma conquista da
grande família humana e um sinal da sua profunda aspiração à unidade, contudo
comporta também o risco dos grandes monopólios e de converter o lucro em valor
supremo. Como em todos os campos da atividade humana, a globalização deve
reger-se também na ética, colocando tudo a serviço da pessoa humana, criada à
imagem e semelhança de Deus.
Na América Latina e no Caribe, assim como em outras regiões, caminhou-se rumo à
democracia, embora haja motivos de preocupação diante de formas de governo
autoritárias ou sujeitas a certas ideologias que se julgavam ultrapassadas, e
que não correspondem à visão cristã do homem e da sociedade, como nos ensina a
Doutrina Social da Igreja. Por outro lado, a economia liberal de alguns países
latino-americanos deve ter presente a equidade, pois continuam a aumentar os
setores sociais que se vêem provados cada vez mais por uma pobreza enorme ou
mesmo despojados dos seus próprios bens naturais.
Nas Comunidades eclesiais da América Latina é notável a maturidade na fé de
muitos leigos e leigas ativos e dedicados ao Senhor, além da presença de muitos
catequistas abnegados, de muitos jovens, de novos movimentos eclesiais e de
recentes Institutos de vida consagrada. Demonstram-se muitas obras católicas
educativas, assistenciais e hospitalares. Observa-se, contudo, uma certa
debilitação da vida cristã no conjunto da sociedade e da própria pertença à
Igreja Católica devido ao secularismo, hedonismo, indiferentismo e proselitismo
de numerosas seitas, de religiões animistas e de novas expressões
pseudo-religiosas.
Tudo isto configura uma situação nova que será analisada aqui, em Aparecida.
Diante da nova encruzilhada, os fiéis esperam desta V Conferência uma renovação
e revitalização da sua fé em Cristo, nosso único Mestre e Salvador, que nos
revelou a experiência singular do Amor infinito de Deus Pai aos homens. Desta
fonte poderão nascer novos caminhos e programas pastorais criativos, que
infundam uma esperança firme para viver de maneira responsável e alegre a fé e
para irradiá-la assim no próprio ambiente.
3.Discípulos e missionários
Esta Conferência Geral tem como tema: "Discípulos e missionários de Jesus
Cristo, para que nele nossos povos tenham vida" (Jo 14, 6).
A Igreja tem a grande tarefa de conservar e alimentar a fé do Povo de Deus, e
recordar também aos fiéis deste Continente que, em virtude do seu batismo, são
chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo. Isto requer segui-lo,
viver em intimidade com Ele, imitar o seu exemplo e dar testemunho. Cada
batizado recebe de Cristo, como os Apóstolos, o mandato da missão: "Ide pelo
mundo inteiro e proclamai a Boa Nova a toda a criação. Quem crer e for batizado,
será salvo" (Mc 16, 15). Pois ser discípulo e missionário de Jesus Cristo e
buscar a vida "nele" supõe estar profundamente enraizado nele.
O que nos dá Cristo realmente? Por que queremos ser discípulos de Cristo? Porque
esperamos encontrar na comunhão com Ele a vida, a verdadeira vida digna deste
nome, e por isso queremos dá-lo a conhecer aos demais, comunicando-lhes o dom
que dele recebemos? Mas é mesmo assim? Estamos realmente convencidos de que
Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida?
Diante da prioridade da fé em Cristo e da vida "nele", formulada no título desta
V Conferência, poderia surgir também outra questão: esta prioridade, não poderia
por acaso ser uma fuga no intimismo, no individualismo religioso, um abandono da
realidade urgente dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos da
América Latina e do mundo, e uma fuga da realidade para um mundo espiritual?
Como primeiro passo, podemos responder a esta pergunta com outra: O que é esta
"realidade"?
O que é o real? São "realidades" somente os bens materiais, os problemas
sociais, econômicos e políticos? Aqui está precisamente o grande erro das
tendências predominantes no último século, erro destruidor, como demonstram os
resultados tanto dos sistemas marxistas como também dos capitalistas. Falsificam
o conceito de realidade com a deturpação da realidade fundante e por isso
decisiva, que é Deus. Quem exclui Deus do seu horizonte falsifica o conceito de
"realidade" e, por conseguinte, só pode terminar por caminhos equivocados e com
receitas destruidoras.
A primeira afirmação fundamental é, pois, a seguinte: somente quem reconhece
Deus, conhece a realidade e pode corresponder-lhe de modo adequado e realmente
humano. A verdade desta tese resulta evidente diante do fracasso de todos os
sistemas que põem Deus entre parênteses.
Contudo, surge imediatamente outra pergunta: Quem conhece Deus? Como podemos
conhecê-lo? Não podemos entrar aqui num debate complexo sobre esta questão
fundamental. Para o cristão, o núcleo da resposta é simples: somente Deus
conhece Deus, somente o seu Filho, que é Deus de Deus verdadeiro, O conhece. E
Ele, "que está no seio do Pai, O deu a conhecer" (Jo 1, 18). Daqui a importância
singular e insubstituível de Cristo para nós, para a humanidade. Se não
conhecemos a Deus em Cristo e com Cristo, toda a realidade se transforma num
enigma indecifrável; não há caminho e, não havendo caminho, não há vida nem
verdade.
Deus é a realidade instituinte, não um Deus apenas pensado ou hipotético, mas o
Deus com um rosto humano; é o Deus-conosco, o Deus do amor até à cruz. Quando o
discípulo chega à compreensão deste amor de Cristo "até ao extremo", não pode
deixar de responder a este amor, a não ser com um amor semelhante: "Seguir-te-ei
para onde quer que fores" (Lc 9, 57).
Podemos formular ainda outra interrogação: O que nos dá a fé neste Deus? A
primeira resposta é: dá-nos uma família, a família universal de Deus na Igreja
Católica. A fé liberta-nos, de igual modo, do isolamento do eu, porque nos leva
à comunhão: o encontro com Deus é, em si mesmo e como tal, encontro com os
irmãos, um acto de convocação, de unificação e de responsabilidade pelo outro e
pelos demais. Neste sentido, a opção preferencial pelos pobres está implícita na
fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a
sua pobreza (cf. 2 Cor 8,9).
Porém, antes de enfrentar aquilo que comporta o realismo da fé no Deus que se
fez homem, temos que aprofundar esta pergunta: Como conhecer realmente Cristo,
para poder segui-lo e viver com Ele, para nele encontrar a vida e para comunicar
esta vida ao próximo, à sociedade e ao mundo? Antes de tudo, Cristo dá-se-nos a
conhecer na sua pessoa, na sua vida e na sua doutrina, através da Palavra de
Deus. Começando a nova etapa que a Igreja missionária da América Latina e do
Caribe se dispõe a empreender, a partir desta V Conferência Geral em Aparecida,
é condição indispensável o profundo conhecimento da Palavra de Deus.
Por isso, é necessário educar o povo para a leitura e a meditação da Palavra de
Deus: que ela se transforme no seu alimento para que, pela sua própria
experiência, vejam que as palavras de Jesus são espírito e vida (cf. Jo 6, 63).
Caso contrário, como poderão anunciar uma mensagem, cujo conteúdo e espírito não
conhecem profundamente? Temos que fundamentar o nosso compromisso missionário e
toda a nossa vida na rocha da Palavra de Deus. Por isso, animo os Pastores a
esforçar-se em vista de a dar a conhecer.
Um grande instrumento para introduzir o Povo de Deus no mistério de Cristo é a
catequese. Nela, transmite-se de forma simples e substancial a mensagem de
Cristo. Portanto, convirá intensificar a catequese e a formação na fé, tanto das
crianças como dos jovens e dos adultos. A reflexão madura da fé é luz para o
caminho da vida e força para sermos testemunhas de Cristo. Para isto, dispõe-se
de instrumentos realmente preciosos, como o Catecismo da Igreja Católica e a sua
versão mais breve, o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica.
Neste campo não nos podemos limitar unicamente às homilias, conferências, cursos
bíblicos ou teológicos, mas é necessário recorrer também aos meios de
comunicação: imprensa, rádio e televisão, sites da internet, foros e muitos
outros sistemas para transmitir eficazmente a mensagem de Cristo a um vasto
número de pessoas.
Neste esforço em vista de conhecer a mensagem de Cristo e de a transformar na
guia da própria vida, é preciso recordar que a evangelização sempre esteve unida
à promoção humana e à autêntica libertação cristã. "Amor a Deus e amor ao
próximo fundem-se num todo: no mais pequenino, encontramos o próprio Jesus e, em
Jesus, encontramos Deus" (Deus caritas est, 15). Por este mesmo motivo, será
inclusive necessária uma catequese social e uma adequada formação na doutrina
social da Igreja, sendo muito útil para isto o "Compêndio da Doutrina Social da
Igreja". A vida cristã não se expressa unicamente nas virtudes pessoais, mas
também nas virtudes sociais e políticas.
O discípulo, fundamentado assim na rocha da Palavra de Deus, sente-se impelido a
anunciar a Boa Nova da salvação aos seus irmãos. Discipulado e missão são como
os dois lados de uma mesma medalha: quando o discípulo está apaixonado por
Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que somente Ele nos salva (cf. At
4, 12). Efetivamente, o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não existe
esperança, não há amor e não existe futuro.
4."Para que nele tenham vida"
Os povos latino-americanos e caribenhos têm direito a uma vida plena, própria
dos filhos de Deus, com condições mais humanas: livres das ameaças da fome e de
todas as formas de violência. Para estes povos, os seus Pastores têm que
fomentar uma cultura da vida que permita, como dizia o meu Predecessor Paulo VI,
"passar da miséria à posse do necessário, à aquisição da cultura, à cooperação
no bem comum... até chegar ao reconhecimento, por parte do homem, dos valores
supremos e de Deus, que é a origem e o termo deles" (cf. Populorum progressio,
21).
Neste contexto, é-me grato recordar a Encíclica "Populorum progressio", cujo 40º
aniversário recordamos no corrente ano. Este documento pontifício põe em
evidência o fato de que o desenvolvimento deve ser integral, isto é, orientado
rumo à promoção de todo o homem e de todos os homens (cf. n. 14), e convida
todos a eliminar as graves desigualdades sociais e as enormes diferenças no
acesso aos bens. Estes povos aspiram, sobretudo, à plenitude de vida que Cristo
nos trouxe: "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância" (Jo 10, 10).
Com esta vida divina desenvolve-se também plenamente a existência humana, nas
suas dimensões pessoal, familiar, social e cultural.
Para formar o discípulo e ajudar o missionário na sua grande tarefa, a Igreja
oferece-lhes, além do Pão da Palavra, também o Pão da Eucaristia. A este
respeito, inspira-nos e ilumina-nos a página do Evangelho sobre os discípulos de
Emaús. Quando eles se sentam à mesa e recebem de Jesus Cristo o pão abençoado e
partido, se lhes abrem os olhos, descobrem o rosto do Ressuscitado, sentem no
seu coração que é verdade tudo o que Ele disse e fez, e que já começou a
redenção do mundo. Cada domingo e cada Eucaristia é um encontro pessoal com
Cristo. Ouvindo a Palavra divina, o coração arde porque é Ele que a explica e
proclama. Quando na Eucaristia se parte o pão, é a Ele que se recebe
pessoalmente. A Eucaristia é o alimento indispensável para a vida do discípulo e
missionário de Cristo.
A Missa dominical, centro da vida cristã
Eis por que a necessidade de dar prioridade, nos programas pastorais, à
valorização da Missa dominical. Temos de motivar os cristãos para que participem
nela ativamente e, se possível, melhor com a família. A participação dos pais
com seus filhos na celebração eucaristia dominical é uma pedagogia eficaz para
comunicar a fé e um estreito vínculo que mantém a unidade entre eles. O domingo
significa ao longo da vida da Igreja, o momento privilegiado do encontro das
comunidades com o Senhor ressuscitado.
É necessário que os cristãos sintam que não seguem um personagem da história
passada, mas Cristo vivo, presente no hoje e no agora de suas vidas. Ele é o
Vivente que caminha ao nosso lado, mostrando-nos o sentido dos acontecimentos,
da dor e da morte, da alegria e da festa, entrando nas nossas casas e
permanecendo nelas, alimentando-nos com o Pão que dá a vida. Por isso a
celebração dominical da Eucaristia tem que ser o centro da vida cristã.
O encontro com Cristo na Eucaristia suscita o compromisso da evangelização e o
impulso à solidariedade; desperta no cristão o forte desejo de anunciar o
Evangelho e de o testemunhar na sociedade para que seja mais justa e humana. No
decorrer dos séculos da Eucaristia brotou um imenso caudal de caridade, de
participação nas dificuldades dos outros, de amor e de justiça.
Somente da Eucaristia brotará a civilização do amor, que transformará a América
Latina e o Caribe para que, além de ser o Continente da Esperança, seja também o
Continente do Amor! Os problemas sociais e políticos
Ao chegar a este ponto podemos perguntarmo-nos: como pode a Igreja contribuir
para a solução dos urgentes problemas sociais e políticos, e responder ao grande
desafio da pobreza e da miséria?
Os problemas da América Latina e do Caribe, assim como do mundo de hoje, são
múltiplos e complexos, e não podem ser enfrentados com programas generalizados.
Todavia, a questão fundamental sobre o modo como a Igreja, iluminada pela fé em
Cristo, deva agir diante desses desafios, são concernentes a todos nós. Neste
contexto, é inevitável falar do problema das estruturas, sobretudo das que criam
injustiças. Na realidade, as estruturas justas são uma condição sem a qual não é
possível uma ordem justa na sociedade. Porém, como nascem? Como funcionam? Tanto
o capitalismo como o marxismo prometeram encontrar o caminho para a criação de
estruturas justas e afirmaram que estas, uma vez estabelecidas, funcionariam por
si mesmas; afirmaram que não só não teriam tido necessidade de uma precedente
moralidade individual, mas também que fomentariam a moralidade comum. E esta
promessa ideológica demonstrou-se falsa.
Os fatos o comprovam. O sistema marxista, onde governou, deixou não só uma
triste herança de destruições econômicas e ecológicas, mas também uma dolorosa
opressão das almas. E o mesmo vemos também no ocidente, onde cresce
constantemente a distância entre pobres e ricos e se produz uma inquietadora
degradação da dignidade pessoal com a droga, o álcool e as sutis ilusões de
felicidade.
As estruturas justas são, como já disse, uma condição indispensável para uma
sociedade justa, mas não nascem nem funcionam sem um consenso moral da sociedade
sobre os valores fundamentais e sobre a necessidade de viver estes valores com
as necessárias renúncias, inclusive contra o interesse pessoal. Onde Deus está
ausente o Deus do rosto humano de Jesus Cristo estes valores não se mostram com
toda a sua força, nem se produz um consenso sobre eles. Não quero dizer que os
não-crentes não podem viver uma moralidade elevada e exemplar; digo somente que
uma sociedade na qual Deus está ausente não encontra o consenso necessário sobre
os valores morais e a força para viver segundo a pauta destes valores, também
contra os próprios interesses.
Por outro lado, as estruturas justas têm que ser procuradas e elaboradas à luz
dos valores fundamentais, com todo o empenho da razão política, econômica e
social. São uma questão da recta ratio e não provêm de ideologias nem das suas
promessas. Certamente há um tesouro de experiências políticas e de conhecimentos
sobre os problemas sociais e econômicos, que evidenciam elementos fundamentais
de um Estado justo e os caminhos que devem ser evitados.
Contudo, em situações culturais e políticas diversas, e as mudanças progressivas
das tecnologias e da realidade histórica mundial, devem ser procuradas de
maneira racional as respostas adequadas e se deve criar com os compromissos
indispensáveis o consenso sobre as estruturas que devem ser estabelecidas.
Este trabalho político não é competência imediata da Igreja. O respeito de uma
sadia laicidade junto com a pluralidade das posições políticas é essencial na
tradição cristã. Se a Igreja começar a se transformar diretamente em sujeito
político, não faria mais pelos pobres e pela justiça, ao contrário, faria menos
porque perderia a sua independência e a sua autoridade moral, identificando-se
com uma única via política e com posições parciais opináveis. A Igreja é
advogada da justiça e dos pobres, exatamente por não se identificar com os
políticos nem com os interesses de partido.
Somente sendo independente pode ensinar os grandes critérios e os valores
inderrogáveis, orientar as consciências e oferecer uma opção de vida que vai
mais além do âmbito político. Formar as consciências, ser advogada da justiça e
da verdade, educar nas virtudes individuais e políticas, é a vocação fundamental
da Igreja neste setor. E os leigos católicos devem ser conscientes da sua
responsabilidade na vida pública; devem estar presentes na formação dos
consensos necessários e na oposição contra as injustiças.
As estruturas justas jamais serão completas de modo definitivo; pela constante
evolução da história, hão de ser sempre renovadas e atualizadas; hão de estar
animadas sempre por um "ethos" político e humano, por cuja presença e eficiência
se trabalhará cada vez mais. Em outras palavras, a presença de Deus, a amizade
com o Filho de Deus encarnado, a luz da sua Palavra, são sempre condições
fundamentais para a presença e eficiência da justiça e do amor nas nossas
sociedades.
Por se tratar de um Continente de batizados, convém preencher a notável ausência
no âmbito político, comunicativo e universitário, de vozes e iniciativas de
líderes católicos de forte personalidade e de vocação abnegada, que sejam
coerentes com as suas convicções éticas e religiosas. Os movimentos eclesiais
têm aqui um amplo campo para recordar aos leigos a sua responsabilidade e a sua
missão de levar a luz do Evangelho para a vida pública, cultural, económica e
política.
5.Outros aspectos prioritários
Para levar a cabo a renovação da Igreja a vós confiada nestas terras, quis fixar
a atenção juntamente convosco sobre alguns aspectos que considero prioritários
nesta nova etapa.
A família
A família, "patrimônio da humanidade", constitui um dos tesouros mais
importantes dos povos latino-americanos. Ela foi e é a escola de fé, palestra de
valores humanos e cívicos, lar em que a vida humana nasce e é acolhida generosa
e responsavelmente. Todavia, na atualidade sofre situações adversas provocadas
pelo secularismo e pelo relativismo ético, pelos diversos fluxos migratórios
internos e externos, pela pobreza, pela instabilidade social e pelas legislações
civis contrárias ao matrimônio que, ao favorecer os anticoncepcionais e o
aborto, ameaçam o futuro dos povos.
Em algumas famílias da América Latina persiste infelizmente ainda uma
mentalidade machista, ignorando a novidade do cristianismo que reconhece e
proclama a igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem.
A família é insubstituível para a tranquilidade pessoal e para a educação dos
filhos. As mães que desejam dedicar-se plenamente à educação dos seus filhos e
ao serviço da família devem gozar das condições necessárias para o poder fazer,
e por isso têm direito de contar com o apoio do Estado. De fato, o papel da mãe
é fundamental para o futuro da sociedade.
O pai, por seu lado, tem o dever de ser verdadeiramente pai que exerce a sua
indispensável responsabilidade e colaboração na educação dos seus filhos. Os
filhos, para o seu crescimento integral, têm o direito de poder contar com o pai
e com a mãe, que se ocupem deles e os acompanhem rumo à plenitude da sua vida.
Portanto, é necessária uma pastoral familiar intensa e vigorosa. É indispensável
de igual modo promover políticas familiares autênticas que respondam aos
direitos da família como sujeito social imprescindível. A família faz parte do
bem dos povos e da humanidade inteira.
Os sacerdotes
Os primeiros promotores do discipulado e da missão são aqueles que foram
chamados "para estar com Jesus e ser enviados a pregar" (cf. Mc 3, 14), ou seja,
os sacerdotes. Eles devem receber de modo preferencial a atenção e o cuidado
paterno dos seus Bispos, pois são os primeiros agentes de uma autêntica
renovação da vida cristã no povo de Deus. A eles quero dirigir uma palavra de
afeto paterno desejando "que o Senhor seja parte da sua herança e do seu cálice"
(cf. Sl 16, 5). Se o sacerdote fizer de Deus o fundamento e o centro de sua
vida, então experimentará a alegria e a fecundidade da sua vocação. O sacerdote
deve ser antes de tudo um "homem de Deus" (1 Tm 6, 11); um homem que conhece a
Deus "em primeira mão", que cultiva uma profunda amizade pessoal com Jesus, que
compartilha os "sentimentos de Jesus" (cf. Fl 2, 5).
Somente assim o sacerdote será capaz de levar Deus o Deus encarnado em Jesus
Cristo aos homens, e de ser representante do seu amor. Para cumprir a sua
altíssima missão deve possuir uma sólida estrutura espiritual e viver toda a
existência animado pela fé, a esperança e a caridade. Tem de ser, como Jesus, um
homem que procure, através da oração, o rosto e a vontade de Deus, cultivando
igualmente sua preparação cultural e intelectual.
Queridos sacerdotes deste Continente e quantos que, como missionários, nele
viestes a trabalhar: o Papa acompanha vossa atividade pastoral e deseja que
estejam repletos de consolações e de esperança, e reza por vocês.
Religiosos, religiosas e consagrados
Quero dirigir-me também aos religiosos, às religiosas e aos leigos e leigas
consagrados. A sociedade latino-americana e caribenha tem necessidade do vosso
testemunho: em um mundo que tantas vezes busca, sobretudo, o bem-estar, a
riqueza e o prazer como finalidade da vida, e que exalta a liberdade
prescindindo da verdade do homem criado por Deus, vocês são testemunhas de que
existe outra forma de viver com sentido; lembrem aos vossos irmãos e irmãs que o
Reino de Deus chegou; que a justiça e a verdade são possíveis se nos abrimos à
presença amorosa de Deus nosso Pai, de Cristo nosso irmão e Senhor, do Espírito
Santo nosso Consolador. Com generosidade e até ao heroísmo, continuai
trabalhando para que na sociedade reine o amor, a justiça, a bondade, o serviço,
a solidariedade conforme o carisma dos vossos fundadores. Abraçai com profunda
alegria vossa consagração, que é instrumento de santificação para vocês e de
redenção para vossos irmãos.
A Igreja da América Latina vos agradece pelo grande trabalho que vindes
realizando ao longo dos séculos pelo Evangelho de Cristo a favor de vossos
irmãos, principalmente pelos mais pobres e marginalizados. Convido a todos para
que colaborem sempre com os Bispos, trabalhando unidos a eles que são os
responsáveis pela pastoral. Exorto-vos também a uma obediência sincera à
autoridade da Igreja. Não tenham outro ideal que não seja a santidade conforme
os ensinamentos de vossos fundadores.
Os leigos
Nesta hora em que a Igreja deste Continente se entrega plenamente à sua vocação
missionária, lembro aos leigos que são também Igreja, assembléia convocada por
Cristo para levar seu testemunho ao mundo inteiro. Todos os homens e mulheres
batizados devem tomar consciência de que foram configurados com Cristo
Sacerdote, Profeta e Pastor, através do sacerdócio comum do Povo de Deus. Devem
sentir-se co-responsáveis na construção da sociedade segundo os critérios do
Evangelho, com entusiasmo e audácia, em comunhão com os seus Pastores.
São muitos os fiéis que pertencem a movimentos eclesiais, nos quais podemos ver
os sinais da multiforme presença e ação santificadora do Espírito Santo na
Igreja e na sociedade atual. Eles são chamados para levar ao mundo o testemunho
de Jesus Cristo e ser fermento do amor de Deus na sociedade.
Os Jovens e a pastoral vocacional
Na América Latina a maioria da população é formada por jovens. A este respeito,
devemos recordar-lhes que sua vocação é ser amigos de Cristo, discípulos,
sentinelas do amanhã, como costumava dizer o meu Predecessor João Paulo II. Os
jovens não temem o sacrifício, mas, sim, uma vida sem sentido. São sensíveis à
chamada de Cristo que os convida a segui-Lo. Podem responder a essa chamada como
sacerdotes, como consagrados e consagradas, ou ainda como pais e mães de
família, dedicados totalmente a servir aos seus irmãos com todo o seu tempo, sua
capacidade de entrega e com a vida inteira. Os jovens encaram a existência como
uma constante descoberta, não se limitando às modas e tendências comuns, indo
mais além com uma curiosidade radical acerca do sentido da vida, e de Deus
Pai-Criador e Deus-Filho Redentor no seio da família humana. Eles devem-se
comprometer por uma constante renovação do mundo à luz de Deus. Mais ainda:
cabe-lhes a tarefa de opor-se às fáceis ilusões da felicidade imediata e dos
paraísos enganosos da droga, do prazer, do álcool, junto com todas as formas de
violência.
Os trabalhos desta V Conferência Geral nos levam a fazer nossa súplica dos
discípulos de Emaús:
"Fica conosco, pois a noite vai caindo e o dia está no ocaso" (Lc 24, 29).
Fica conosco, Senhor, acompanha-nos mesmo se nem sempre te soubemos reconhecer.
Fica conosco, porque se vão tornando mais densas à nossa volta as sombras, e tu
és a Luz; em nossos corações insinua-se o desespero, e tu os fazer arder com a
esperança da Páscoa. Estamos cansados do caminho, mas tu nos confortas na fração
do pão para anunciar a nossos irmãos que na verdade tu ressuscitaste e que nos
deste a missão de ser testemunhas da tua ressurreição.
Fica conosco, Senhor, quando à volta da nossa fé católica surgem as nuvens da
dúvida, do cansaço ou da dificuldade: tu, que és a própria Verdade como
revelador do Pai, ilumina as nossas mentes com a tua Palavra; ajuda-nos a sentir
a beleza de crer em ti.
Fica nas nossas famílias, ilumina-as nas suas dúvidas, ampara-as nas suas
dificuldades, conforta-as nos seus sofrimentos e na fadiga quotidiana, quando à
sua volta se adensam sombras que ameaçam a sua unidade e a sua natureza. Tu que
és a Vida, permanece nos nossos lares, para que continuem a ser berços onde
nasce a vida humana abundante e generosamente, onde se acolhe, se ama, se
respeite a vida desde a sua concepção até ao seu fim natural.
Permanece, Senhor, com os que nas nossas sociedades são mais vulneráveis;
permanece com os pobres e humildes, com os indígenas e afro-americanos, que nem
sempre encontraram espaços e apoio para expressar a riqueza da sua cultura e a
sabedoria da sua identidade. Permanece, Senhor, com as nossas crianças e com os
nossos jovens, que são a esperança e a riqueza do nosso Continente, protege-os
das tantas insídias que atentam contra a sua inocência e contra as suas
legítimas esperanças. Oh bom Pastor, permanece com os nossos idosos e com os
nossos enfermos! Fortalece todos na sua fé para que sejam teus discípulos e
missionários!
6.Conclusão
Ao concluir a minha permanência entre vós, desejo invocar a proteção da Mãe de
Deus e Mãe da Igreja sobre as vossas pessoas e sobre toda a América Latina e
Caribe. Imploro de modo especial a Nossa Senhora com o título de Guadalupe,
Padroeira da América, e de Aparecida, Padroeira do Brasil que vos acompanhe no
vosso empenhativo e exigente trabalho pastoral. A ela confio o Povo de Deus
nesta etapa do terceiro Milênio cristão. A ela peço também que guie os trabalhos
e reflexões desta Conferência Geral, e que abençoe com abundantes dons os
queridos povos deste Continente
Antes de regressar a Roma, quero deixar à V Conferência Geral do Episcopado da
América Latina e do Caribe uma recordação que a acompanhe e a inspire. Trata-se
deste bonito tríptico proveniente da arte de Cusco no Peru. Nele está
representado o Senhor pouco antes de subir ao Céu, dando a quem o seguia a
missão de fazer discípulos de todos os povos. As imagens evocam a estreita
relação de Jesus Cristo com os seus discípulos e missionários para a vida do
mundo. O último quadro representa São João Diogo evangelizando com a imagem da
Virgem Maria no seu manto e com a Bíblia na mão. A história da Igreja ensina-nos
que a verdade do Evangelho, quando é assumida na sua beleza com os nossos olhos
e é acolhida com fé pela inteligência e o coração ajuda-nos a contemplar as
dimensões de mistério que suscitam a nossa admiração e adesão.
Despeço-me muito cordiamente de todos vós com esta firme esperança no Senhor.
Muito obrigado!
Mensagem de Despedida do Papa Bento XVI no Aeroporto de
Guarulhos-SP

Senhor Vice-Presidente: Ao deixar esta terra abençoada do Brasil, eleva-se na
minha alma um hino de ação de graças ao Altíssimo, que me permitiu viver aqui
horas intensas e inesquecíveis, com o olhar dirigido à Senhora Aparecida que, do
seu Santuário, presidiu o início da V Conferência Geral do Episcopado
Latino-Americano e do Caribe.
Na minha memória ficarão para sempre gravadas as manifestações de entusiasmo e
de profunda piedade deste povo generoso da Terra da Santa Cruz que, junto à
multidão de peregrinos provindos deste Continente da esperança, soube dar uma
pujante demonstração de fé em Cristo e de amor pelo Sucessor de Pedro. Peço a
Deus que ajude os responsáveis, seja no âmbito religioso que no civil a imprimir
um passo decidido àquelas iniciativas, que todos esperam, pelo bem comum da
grande Família Latino-Americana.
A minha saudação final, repassada de gratidão, vai para o Senhor Presidente da
República, para o Governo desta Nação e do Estado de São Paulo, e para as demais
Autoridades brasileiras que tantas provas de delicadeza quiseram-me dispensar
nestes dias. Estou também agradecido às autoridades consulares, cuja diligente
atuação facilitou sobremaneira a participação das próprias Nações nestes dias de
reflexão, oração e compromisso pelo bem comum dos participantes a este grande
evento.
Um particular pensamento de estima fraterna dirijo-o, com profundo
reconhecimento, aos Senhores Cardeais, aos meus Irmãos no Episcopado, aos
Sacerdotes e Diáconos, Religiosos e Religiosas, aos Organizadores da
Conferência. Todos contribuíram para abrilhantar estas jornadas, deixando a
quantos nelas tomaram parte cheios de alegria e de esperança - gaudium et spes!
- na família cristã e na sua missão no meio da sociedade.
Tende a certeza de que levo a todos no meu coração, donde brota a Bênção que vos
concedo e que faço extensiva a todos os Povos da América Latina e do Mundo.
Muito obrigado!
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