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A Oração Litúrgica
Qualquer oração, mesmo
feita em particular, é sempre comunhão com Cristo e com a Igreja, por ser sempre
o cristão membro de Cristo da Igreja; trata-se da comunhão íntima, interior,
entre a alma e Deus. Outra forma de oração existe em tal comunhão, assume também
dimensão externa, visível, comunitária: é a oração litúrgica, mediante a qual a
Igreja, unida a Cristo, sua cabeça e esposo seu, oferece a Deus o culto
integral.
Não é o homem puro espírito, mas espírito encarnado;
deve, portanto, empenhar na oração não só as faculdades espirituais:
inteligência e vontade, mas também as afetivas: coração, sensibilidade; e até a
imaginação, os sentidos e a atitude externos. O homem todo deve rezar.
Consegue-o na oração litúrgica, que não é só culto interno, mas também externo,
expresso com as orações em comunidade, os cânticos, os gestos, as cerimônias. Se
o culto interno é essencial, porque sem ele o externo seria formalismo e
farisaísmo, não havemos, porém, de desvalorizar o culto externo, que tem, a
função de manifestar, em publico, de modo tangível, a devoção interior dos
fiéis. Corresponde a oração litúrgica à natureza do homem, assim como também a
da Igreja, que, por ser sociedade visível, não pode renunciar ao culto social
externo. Exprime justamente a sagrada Liturgia "a genuína natureza da verdadeira
Igreja, que tem a característica de ser, ao mesmo tempo, humana e divina,
visível, mas dotada de realidades invisíveis, fervorosa na ação e entregue à
contemplação" (SC 2).
Desde os primórdios da Igreja, perseveravam os cristãos
"nas reuniões em comum, na fração do pão e nas orações... louvando juntos a
Deus." (At. 2, 42-47). Foram as primeiras reuniões eclesiais, cujo centro era
Jesus presente na Eucaristia.
Valor intrínseco tem, portanto, a oração litúrgica,
valor objetivo, proveniente do infinito valor do sacrifício e da oração de
Cristo. É, por isso, a oração litúrgica o sustentáculo da oração particular,
enquanto supre as deficiências desta e alimenta com a graça proveniente da
presença e ação vivificante de Cristo. Quando sofremos com a pobreza de nossa
oração pessoal, grande conforto é nos refugiarmos na oração litúrgica, a grande
oração de Cristo e da Igreja. Por outro lado, precisa ser a oração litúrgica
acompanhada pela oração pessoal dos fiéis, que dela participam. Já vimos que a
oração tem valor intrínseco, é sempre a oração de Cristo e da Igreja. Isto,
embora esteja distraído o orante. Entretanto, só aproveita dela o individuo na
medida de sua fé, sua devoção e empenho pessoal. Portanto, oração litúrgica e
oração pessoal jamais se contrapõem nem se separam; hão de estar sempre unidas
de modo que se compenetrem, vivificando-se e completando-se mutuamente.
Não é a liturgia apenas culto perfeito da Igreja a Deus
em união com Cristo, sua cabeça. Abraça ela e prolonga todo o mistério de Cristo
Redentor nos fundamentas aspectos de glorificação do Pai e salvação dos homens.
Jesus, "único mediador entre Deus e os homens." (1 Tm 2, 5), único e eterno
sacerdote, cumpriu a obra "da redenção e da perfeita glorificação de Deus...
especialmente por meio do mistério pascal de sua bem-aventurada Paixão,
Ressurreição e gloriosa Ascensão." (SC 5), o que se deu uma vez, para sempre, em
determinado momento histórico.
Viver a vida litúrgica significa, portanto, viver o
mistério de Cristo, como quis ele prolongar e exprimir em sua Igreja.
Nas várias ações litúrgicas está Cristo sempre
presente, agindo na Igreja e por meio dela. "Está presente no sacrifício da
Missa... momento sob as espécies eucarísticas. Presente está, com sua virtude,
nos sacramentos... Presente, pela sua palavra, sendo ele que fala, quando na
Igreja se lêem as Sagradas Escrituras. Está presente, enfim, quando a Igreja
reza e louva, pois prometeu: 'Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, aí
estou eu, no meio deles'. (Mt 18, 20)" (SC 7). Aparece, assim, com clareza, que
a liturgia só faz exprimir de modo sensível e realizar, eficazmente, as duas
grandes e inseparáveis dimensões do sacerdócio de Cristo: a glória do Pai e a
redenção do mundo. De fato, no sacrifício eucarístico, renova Cristo sua
imolação, justamente para tal fim. Depois, nos sacramentos, santifica os fiéis,
inserindo-os no seu mistério pascal, de modo tal que no batismo somos mortos,
sepultados e ressuscitados com ele. (Rm 6, 4); na penitência somos absolvidos e
purificados em virtude da sua paixão; e na Eucaristia nos alimentamos com seu
Corpo e Sangue, oferecidos por nossa salvação. E enquanto nos regeneram e
santificam em Cristo, tornam-nos os sacramentos, por isso mesmo, capazes de
participar do culto perfeito que Jesus presta ao Pai: "Justamente por isso –
Afirma o Concílio – é a liturgia considerada como o exercício do sacerdócio de
Jesus Cristo; nela, por meio de sinais sensíveis, é significada e realizada a
santificação do homem, e o culto público integral é exercido pelo Corpo místico
de Jesus, isto é, pela cabeça e membros." (SC 7). Ao participar das ações
litúrgicas, associa-se a fiel à dupla função do sacerdócio de Cristo: a
glorificação do Pai e a santificação dos homens. "Por conseguinte, toda
celebração litúrgica, enquanto obra de Cristo sacerdote e de seu Corpo, que é a
Igreja, é ação sagrada, por excelência, e nenhuma outra função da Igreja a
iguala em eficiência." (ibidem).
Fonte: Livro Intimidade Divina
Padre José Carneiro de Oliveira Filho
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